Kassandra Valduga: a mulher, a aparência e a feminilidade

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Assim como a preocupação excessiva com a aparência pode denotar uma fragilidade psíquica, o total desapego também é reflexo de um desinvestimento em si mesmo.

Em entrevista ao portal (En)Cena, a jornalista e consultora de imagem Kassandra Valduga demonstra que trabalhar com moda exige bem mais que estar antenada com as tendências ou seguindo-as. O que importa, ao final, é o bem estar do cliente, e para isso sua personalidade deve ser investigada a fundo antes de se identificar a vestimenta mais adequada. Dentre outras coisas, também tratamos dos conceitos de mulher, feminilidade, vantagens e desvantagens do gênero, dentre outros assuntos.

(En)Cena – Para iniciar nossa conversa: o que é ser mulher e o que é ser feminina?

Kassandra Valduga – Ser mulher é ser especial, é ser habilidosa de forma genuína, com charme e graça. É um ser humano com plus, é ter a possibilidade de encantar, em qualquer coisa que faça. E muito disso se expressa através da feminilidade, que pede doçura, delicadeza. Ser feminina é saber explorar o que é ser mulher.

(En)Cena – Então, ser mulher implica em ser feminina para você? Como atender uma cliente não feminina, por exemplo, se tivesse que atender uma homossexual que não gosta muito de feminilidade mas também não é uma transgênero que quer parecer muito masculina. Já pegou um trabalho assim?

Kassandra Valduga – Ser mulher não implica só em ser feminina, mas acho que a feminilidade pode ser encarada como um ponto positivo e não como fraqueza. Seria interessante fazer consultoria para uma homossexual. Tentaria entender o quem ela é como o de qualquer outra cliente. Pessoalmente nunca peguei um caso assim, mas virtualmente sim. Fiz uma consultoria express para duas mulheres que iam se casar e não sabiam o que usar porque não queriam usar vestido, mas também não queriam parecer masculinas. E postei as sugestões no Super Combina. Foi uma matéria que teve muita repercussão e acredito que tenha ajudado as noivas  em questão pelos depoimentos que recebi. Homossexualidade não é um tabu para mim.

(En)Cena – Se não todos, mas a maioria de seus clientes são mulheres. Quando você é chamada para uma consultoria de imagem, qual a sua principal preocupação, o que norteia seu trabalho?

Kassandra Valduga – Quase 100% são mulheres, até porque tenho voltado meu trabalho cada vez mais para elas. Não tem como fazer consultoria dissociada do emocional da mulher e tenho focado muito nisso, em trabalhar o emocional com a imagem. Mas minha maior preocupação é conseguir adentrar o mundo dessa pessoa, é fazê-la entender o que ela gosta de usar, qual sua essência e como transformar isso em uma boa imagem. Porque elas pensam que a consultoria pessoal obedece a regras de certo e errado, de pode e não pode, como a consultoria corporativa, mas não tem nada a ver com isso.

(En)Cena – A partir da sua experiência com suas clientes, o que você diria que são as principais preocupações e angústias dessas mulheres ao te chamarem?

Kassandra Valduga – Aparentemente é de não saber fazer combinações, de não conseguir explorar o que tem no guarda-roupa. Mas na verdade é insegurança com a própria imagem, é falta de conhecimento do próprio estilo, baixa autoestima com a aparência e falta de informação sobre moda. É não saber se estão adequadas para o ambiente de trabalho, para a idade, para o próprio corpo, ou para uma nova fase como o casamento ou maternidade.

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(En)Cena – Como você trabalha os conflitos entre a imagem X identidade de alguém?

Kassandra Valduga – Não dá para construir uma “nova” imagem de alguém sem ter como pilar a sua identidade. Caso contrário, ela não conseguiria se vestir sozinha. Você constrói uma imagem quando trabalha um personagem, um artista no palco, mas no dia a dia, ninguém mantém. Muitas vezes acontece da pessoa projetar uma imagem que ela consideraria ideal e querer ser aquilo, mas se não estiver na essência dela não se sustenta. Procuro mostrar o que a pessoa tem de melhor e que ela pode fazer milagres pelo próprio visual com um pouco de dedicação.

(En)Cena – Qual o trabalho mais difícil que você já encarou e por que ele foi considerado difícil?

Kassandra Valduga – Em consultoria de imagem e moda foi atender políticos para produção de material de campanha. Porque mal dá tempo para conhecer a pessoa, e ter que criar um diferencial, colocar a pessoa com uma boa imagem, selecionar cores que combinem com ela é um desafio. Além disso, tem toda uma equipe opinando. Em trabalhos como este, onde vai sobressair uma foto ou 30 segundos de TV, um brinco ou uma gola que não caiu legal pode comprometer tudo.

(En)Cena – No mundo da moda, como você percebe a mulher frente ao mercado. Há mais homens ou mulheres em destaque, que leitura você faz dessa situação?

Kassandra Valduga – A mulher domina o mercado da moda. Se falarmos em estilismo, as grifes internacionais tem muitos homens à frente, mas o restante da cadeia é toda dominada por mulheres. No Brasil elas ditam moda, sejam estilistas, empreendedoras, jornalistas, editoras, blogueiras, modelos, produtoras, enfim… O peso do homem nessa área é tímido, tomou um pouco mais de corpo de 2010 para cá.

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(En)Cena – Você já encontrou alguma dificuldade por ser mulher, ou esse fato já te favoreceu em algum momento?

Kassandra Valduga – Eu encontro as mesmas dificuldades que todas as mulheres no mercado de trabalho, com a família, com a sociedade, nos relacionamentos. Claro que são dificuldades inerentes ao gênero. Antes de trabalhar com moda, como assessora de imprensa e gestora de comunicação na área pública, o ambiente era mais hostil. Hoje tenho mais fluidez no trabalho, embora ainda sinta alguma dificuldade nos trâmites burocráticos. Por exemplo, o Super Combina foi o único projeto inscrito por uma mulher, selecionado para o Programa de Aceleração de Startups do Sebrae em 2017, em um universo de 20 empresas. Participando do programa tem eu e 19 homens.

(En)Cena – Qual a principal vantagem em ser mulher?

Kassandra Valduga – Hoje em dia, é poder fazer as próprias escolhas e viver os sabores e dissabores disso, e ainda assim segurar a maior onda, ter jornada dupla e ser linda.

(En)Cena – Entrando um pouquinho na sua vida pessoal, ao logo da sua história em que te favoreceu o fato de ser mulher com seus parentes, amigos, amores, na fase escolar ou profissionalmente?

Kassandra Valduga – Sempre amei ser mulher e me sinto especial por isso. Fui a primeira neta do lado materno, em uma família onde só tinham mulheres (minha avó e três filhas), então eu já comecei recebendo todos os mimos e completamente inserida no universo feminino. No interior do Rio Grande do Sul, para uma família pobre, o melhor que uma mulher podia ter era casar. Embora meus pais tenham vivido essa geração, fui criada para ser independente. Isso não significa que não desejo formar uma família. Piloto bem um fogão muito bem, mas por opção, não por obrigação. Então eu usei tudo que sabia como mulher, toda a graciosidade e coloquei isso na minha vida profissional. Hoje eu oriento mulheres a serem mais mulheres, a se amar mais, a aprender a valorizar sua beleza, sua imagem, a aproveitar a moda a favor delas.

(En)Cena – Houve algum momento na vida em que ser mulher representou uma dificuldade para você?

Kassandra Valduga – Dificuldade propriamente não, mas em muitas situações o fato de ser mulher se sobressaiu mais que o meu conteúdo, o meu conhecimento, e isso me constrangia. Mas aprendi a tirar proveito disso. Se a mulher se sobressai, chego como mulher primeiro e depois mostro minhas competências como profissional e minhas qualidades como pessoa. Não só para mim, mas para todo mundo, a imagem vem primeiro.

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(En)Cena – Para finalizar, vamos falar do Super Combina, como nasceu esse projeto?

Kassandra Valduga – O Super Combina é um site que virou uma empresa com outros serviços agregados. Ele nasceu de um sonho antigo de ser editora de moda e com muito incentivo dos amigos para que eu fizesse algo na área. Dividi a ideia com a Agência Public e eles abraçaram o projeto. Comecei o site em 2015 para divulgar informações de moda, beleza e lifestyle que tivessem a ver com nossa realidade. Hoje o Super Combina é uma empresa que agrega os serviços de consultoria, palestras, treinamentos de imagem pessoal e corporativa e o curso Tire o vestir do automático, que faço em parceria com psicóloga Karina Leiko.

(En)Cena – Desmistificando a moda como algo superficial e fútil, de acordo com a visão de algumas pessoas, como você diria que a partir da moda as pessoas são ajudadas? E como você usa seu site para fazer esse trabalho?

Kassandra Valduga – Moda é uma forma de expressão. O vestir passa pela personalidade. Você externa o que é por dentro. O fútil é você querer a qualquer custo obedecer a um padrão, a um estilo só porque você quer ser aceita socialmente, quer se destacar de alguma forma. Quando você usa o que você ama, o que te deixa feliz, você fica muito mais bonita. As pessoas começam a ser ajudadas a partir do momento que elas entendem o que elas gostam de vestir, e usam a moda como fonte de informação para aprimorar seu visual. No supercombina.com.br tento fazer isso. Mostrar o que é legal pra quem. Como você pode usar uma t-shirt com jeans e no trabalho.

(En)Cena – Só mais uma pergunta: sobre a obsessão pelo corpo magro. Você observa isso entre as suas clientes? Como trata dessa questão de aceitação pessoal?

Kassandra Valduga – Hoje, muito mais que a magreza, o que as mulheres buscam é o corpo gostoso. Acreditam que só vão vencer a concorrência com coxas grossas, barriga sequinha e bumbum empinado. A mídia continua insistindo no padrão de beleza magro, especialmente as blogueiras que já acordam maquiadas e escovadas. Eu brinco que mulheres da vida real são diferentes, o que não impede, claro, da gente se cuidar. Passar uma maquiagem, ter um cabelo hidratado, emagrecer, se o peso é um incômodo. Mas a necessidade de estar no padrão deixa muitas mulheres infelizes e as fazem buscar cada vez mais cirurgias estéticas. Tudo é motivo para uma lipo. Conheço gente que já fez duas. Não adianta nada se você não muda seus hábitos de vida. Aceitar suas peculiaridades, mesmo que a seus olhos pareçam “defeitos”, e aprender a valorizar seus pontos fortes é a chave para a felicidade quando se fala em imagem pessoal.

Risia Lima
Estudante de Psicologia (Ceulp/Ulbra), namorando a psicanálise | Bacharel em Comunicação Social (UFT) | MBA em Gestão da Comunicação nas Organizações (Univ. Católica de Brasília)