“Mad Max: Estrada da Fúria” – Aridez apocalíptica é cenário para “feminismos” e alterofobia

Com nove indicações ao OSCAR:

Filme, Diretor (George Miller), Fotografia, Design de Produção, Edição de Som, Maquiagem e Cabelo, Efeitos Visuais, Montagem e Edição

Banner Série Oscar 2016

“Que nada nos defina, que nada nos sujeite.
Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre”

Simone de Beauvoir

Boa parte dos cinéfilos aguardava a retomada de Mad Max com um mix de dúvida e ansiedade. A maior preocupação era se o experiente cineasta George Miller conseguiria imprimir originalidade para uma série que, aos olhos de muitos, estava datada apenas aos anos 80, década marcada pelo “fervor” da Guerra Fria, pela corrida armamentista, e pelo temor em relação ao futuro do planeta, cada vez mais ameaçado por desastres ambientais. Ora, além dos contínuos desmandos na área ambiental (o caso do Golfo do México é só um dos que podem ser elencados) e dos alarmantes prognósticos climáticos, os componentes políticos/filosóficos da produção cinematográfica ainda são preocupações vigentes e crescentes, e a escalada de conflitos cometidos pelo homem é algo que não mudou muito nestes últimos 30 anos.

Assim, “Mad Max: Estrada da Fúria” é um filme atual e continua com um tom desconcertante. Dentre outras coisas, guardadas as devidas proporções, ele é um alerta para as eventuais consequências da insanidade do homem. Uma insanidade que pode se agravar por gatilhos como as constantes tensões entre Irã e Israel, Ocidente (EUA e Europa) e Rússia, e mais recentemente pelo surgimento do famigerado Estado Islâmico (que coincidentemente ou não, está “cravado” nos desertos da África e do médio Oriente, num cenário geográfico e social que muito se assemelha ao do filme). E se na série original Mel Gibson se confundia com a própria “loucura” da personagem que representava, na versão atual quem supera todas as expectativas é Charlize Theron (Imperator Furiosa). Em substituição a Gibson, o inglês Tom Hardy teve uma atuação mediana, de acordo com boa parte dos críticos.

O FILME

Em 120 minutos de pura “overdose sensorial”, como denominou o crítico brasileiro Pablo Villaça, “Mad Max: Estrada da Fúria” mostra a estória de Max, alguém assombrado por um passado turbulento e que, justamente por isso, acredita que a melhor maneira de sobreviver é vagar sozinho. “Após ser capturado por uma comunidade, Max é usado como banco de sangue para soldados feridos. O líder local, Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), usa o fato de ser o detentor de uma grande reserva de água para explorar toda sua população. Além de capturar pessoas para ‘doarem’ sangue, ele tem também doadoras de leite e até mulheres que existem para carregarem seus filhos. Quando uma de suas pessoas de confiança foge da comunidade, Joe vai atrás dela com todo seu exército. Por acaso, Max se vê em meio a essa disputa”.

Há vários componentes que concorrem para obter a atenção do expectador e marcam profundamente o longa. Dentre eles, destaca-se o domínio sobre a água como mecanismo de controle e subjugação do (sofrido e doente) povo, a misoginia e o tom “religioso” do líder (cujos soldados/seguidores querem morrer como mártires para alcançar o paraíso de Valhala – alguma semelhança com as atuais vertentes fundamentalistas?), a tensão de gênero e a força do aspecto feminino (com suas várias nuances de “feminismos”, assim mesmo, no plural, por conter uma dezena de abordagens), uma tentativa de rostidade expressa na androginia dos “guerreiros”, a associação do rock e do mundo automotivo como dinâmica eminentemente masculinizada e, por fim, um forte apelo para a alterofobia¹. Para que não fique demasiado longo (e, por ventura, chato), este artigo irá abordar apenas os vieses do(s) feminismo(s) [em duas “ondas”, sendo uma delas referente à tentativa de as mulheres obterem autonomia sob si mesmas (sobre seus corpos) e, a outra, no uso da política como mecanismo de poder] e da alterofobia.

FEMINISMOS E ALTEROFOBIA

Imperator Furiosa, personagem de Charlize Theron, é a síntese da dinâmica dos “feminismos”, pois ela reflete, como diria a filósofa Cinthia Falchi (doutoranda no Programa de Pós-graduação em Filosofia da Unesp), “[os feminismos] realizados, lutados, vividos, lidos de maneira plural”, e que não se restringe apenas a luta pela  equidade de direitos. No filme Charlize se rebela contra a concepção histórica do feminino restrito à procriação, que enquadra a mulher num esquema reducionista, presa às categorias do sexo, onde “a ideia de que a capacidade de dar à luz (ou seja, a biológica) é o que define a mulher” (FALCHI, apud WITTIG, 1970, pág. 01).

Há, então, uma busca para a “desterritorialidade” da noção de que as categorias de homens e mulheres são eternas (sob o prisma de que tais categorias foram dadas por um legislador externo, um demiurgo, por exemplo). Estas categorias seriam, a cabo, decorrentes de um longo processo de disputas políticas e econômicas (para saber mais, ler Marco Feliciano e o frágil discurso de “família natural”) onde cabe, inclusive e antagonicamente à concepção vigente, a crença no “matriarcado e numa ‘pré-história’ quando as mulheres criaram a civilização (a causa de uma predisposição biológica), enquanto os homens toscos e brutais caçavam” (idem).

No filme, as mulheres não são apenas subjugadas, elas são objeto de alterofobia, de “manejo” e manobra por parte dos homens. Ou seja, no patriarcado² irrestrito (pré-histórico ou apocalíptico) haveria uma dinâmica que remete à condição humana descrita por Hobbes, em que “o homem é por natureza um ser egoísta e tendente ao conflito”, e que “abandonados à sua condição natural correriam o risco de destruição” (GUEDES DE LIMA, 2015, pág. 2).

Já as mulheres, cativas sem voz, veem na fuga, na estrada, no movimento, na busca do ideário alimentado por um passado distante, a possibilidade de conseguir a liberdade; acabam por encontrar-se com trocas, barganhas e injunções que as levaram a ações políticas, mesmo que isso ocorra à margem de suas intenções primeiras. Aliás, no filme sequer houve uma tentativa (pelo menos em boa parte do tempo) de substituição do patriarcado pelo matriarcado, como fruto da “negação do outro”. Se assim tivesse ocorrido, “mudaria apenas o sexo do opressor”. Ademais, se (no filme) elas se apropriam da luta (violenta, inclusive), isto ocorre apenas como princípio de defesa, à medida que “adentram o mundo em busca da projeção ideal”, e acabam por compreender a força da diferença (FALCHI, apud WALLERSTEIN, 1970). O resultado disto tudo é que o mundo passa a ser visto não mais “como uma unidade de sentido, mas como produzido por múltiplas matrizes de entendimento”. Isso é justamente o oposto do que estavam acostumadas.

No longa, esta delicada “fusão” das diversidades, onde inclusive há elementos do masculino e do feminino, mas sem a “classificação eterna”, portanto imutável dos gêneros, fica clara quando dois homens se juntam às mulheres para, a partir de uma dinâmica que é (desconfiadamente) delineada no passar do tempo e pela convivência, deságuam num feminismo que, a princípio, se contrapõe à opressão de Immortan Joe: ele [este feminismo] procura “desnaturalizar” a divisão que há entre homens e mulheres.

O filme exprime de forma dramática a relação de constante tensão entre gêneros, onde claramente é lançado sob o aspecto masculino a pecha da usurpação e da violência, e ao aspecto feminino é vislumbrado o potencial de transformação pela aglutinação da diferença (inclusive o crescimento vem com o apoio do homem, não com o seu tácito indeferimento).

É uma mudança de rumo, antes apenas derivada da força e da brutalidade, e agora conduzida pela mesma força, mas também pela política. Há, portanto, uma tomada triunfal do poder, onde os aspectos femininos meramente calcados na biologia sofrem profunda transformação. Sobre este tema, Beauvoir diz que o esforço da mulher (para “delimitar” novas possibilidades de atuação no mundo) requer a desconstrução do ideário daqueles que escreveram sobre a natureza humana, já que “os homens adotaram a masculinidade como o padrão com o qual julgamos esta natureza humana”, e também teriam sido os próprios homens que definiram “as mulheres segundo a diferença desse padrão, [o que resultou no] homem sendo identificado como ser humano e a mulher, como fêmea”.

Por fim, conforme Falchi (apud BENTO, 2011, pág. 84), “o feminismo é uma luta política que não pode estar circunscrita aos marcos de uma identidade oriunda em uma determinada estrutura[meramente] biológica. A reivindicação de uma fala feminina está para além de uma concepção institucionalizada, para além do útero”. E como ainda diria Simone de Beauvoir, “querer ser livre é também querer livres os outros”. Esta é a tônica presente em toda a estrutura de “Mad Max: Estrada da Fúria“.

Mais filmes indicados ao OSCAR 2016: http://encenasaudemental.net/serie-oscar-2016

NOTAS:

¹ Alterofobia: é o oposto de filantropia; é um desprezo pelo outro; em GUEDES DE LIMA, é o medo de se relacionar com o outro.

²Patriarcado: é uma palavra derivada do grego ?ρχω (árjo), que significa ‘mandar’, e πατ?ρ (patér), que significa ‘pai’, e se refere a um território ou jurisdição governado por um patriarca. O uso do termo no sentido de orientação masculina da organização social aparece pela primeira vez entre os hebreus no século IV para qualificar o líder de uma sociedade judaica; o termo seria originário do grego helenístico para denominar um líder de comunidade. Segundo Joseph Campbell os hebreus foram os primeiros a usar o termo pai para denominar o que até então era a Deusa Mãe ou Mãe Terra, a divindade da religião entre os antigos que cultuava as mulheres. Ainda segundo Campbell, a convenção do termo entre os hebreus teria origem nas constantes perseguições religiosas e no desterramento que isso acarretava, ocasionando a perda da identidade territorial. No sentido original, este é uma autoridade masculina religiosa que tem poder sobre todos que lhe estão subordinados. O termo também pode ser estendido para os homens adultos que têm poder sobre os familiares e empregados, concedido tanto por autoridades religiosas que compactuam dessa dominação, quanto por autoridades políticas que estimulam esse sistema de organização social. Trata-se, portanto, de uma ideologia na qual o homem é a maior autoridade, devendo as pessoas que não são identificadas fisicamente com ele (isto é, que não sejam também adultos do sexo masculino) tornar-se subordinadas, prestando-lhe obediência.

FICHA TÉCNICA

MAD MAX: A ESTRADA DA FÚRIA

Título original: Mad Max: Fury Road
Ano : 2015
Direção: George Miller (II)
Duração: 120 minutos
Gênero: Ação – Aventura – Thriller
Países de Origem: Austrália e Estados Unidos da América

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).