Márcia Tiburi: O mito do sexo e a mudança no formato de conversação

Se nosso ser político se forma em atos de linguagem, precisamos pensar nessa formação quando o empobrecimento desses atos se torna tão evidente. O autoritarismo é o sistema desse empobrecimento – Márcia Tiburi, em “Como falar com um fascista”

Em uma de suas participações no programa Café Filosófico, da CPFL Cultura, a filósofa Márcia Tiburi apresentou uma visão instigante sobre a desconstrução do mito do sexo. Para tanto, iniciou sua tese a partir da Grécia Clássica e, irreverente, disse que o útero é o grande fundador da filosofia. Isso pode soar estranho, no entanto ao apontar o método da maiêutica (parto) criado por Sócrates, a assertiva da filósofa ganha um novo sentido. Márcia Tiburi defende que, em razão de Sócrates não poder seguir a profissão de sua mãe, que era uma parteira, “ele então resolveu que faria algo melhor do que ela”. Desta forma, em vez de fazer o parto do corpo (cuja profissão era restrita ao universo feminino), faria o “parto das ideias”. Com isso, a criação da filosofia como a conhecemos hoje surge a partir de uma metáfora. A filosofia passa a ser caracterizada como um “partejar das ideias”, no sentido de “ajudar o outro a dar a luz às suas próprias ideias, algo que está guardado dentro dele, como se fosse um filho (ou seja, a metáfora da maternidade está funcionando aí o tempo todo)”, explica Tiburi.

Sócrates, assim, teria demonstrado possuir uma enorme inveja da sua mãe, por não poder realizar aquilo que ela fazia, que era “reproduzir o corpo, reproduzir a vida”. E é a partir desta falta, desta ausência, que ele reencena, recria o gesto de sua mãe. Neste ponto, diz Tiburi, “se for levar em conta o conceito de histeria naquilo que há de ‘teatro’, no hystera (útero), a filosofia já contém o germe do histérico”.

E onde ficavam as mulheres, durante este processo de “partejar as ideias”?, provoca Tiburi, para logo emendar: “Reclusas no Domus (casa em latim), no Oikos (casa em grego), que na verdade já era um protótipo de um campo de concentração”. E o que os homens faziam, neste ínterim? O que frequentemente, na história da humanidade, eles sempre fizeram: ocupar o espaço público, como o próprio Sócrates fez. Isso fica claro numa passagem de “O Banquete” de Platão, quando num dado momento os homens se preparam para começar um debate e pedem para a flautista sair do ambiente. “Deixem-na tocar para si mesma, ou para as mulheres lá dentro… mas procuremos agora o entretenimento através do diálogo”, destaca o texto.

Diante desta breve construção histórica, Márcia Tiburi diz que o mito do sexo é um dos quais a filosofia não conseguiu, até hoje, se posicionar de forma adequada. “O mito é uma narrativa que é construída para se colocar no lugar da ausência da lógica. Esta é uma interpretação tradicional e, em alguma medida, clichê. É uma interpretação básica, que é boa e justa, mas que não engloba todos os aspectos”, enfatiza. Neste sentido, a filosofia pode ser interpretada como uma negação ou mesmo uma superação do mito. Isso ocorreu de forma sistemática porque a filosofia quis garantir uma espécie de “reserva de marcado”, afinal o mito ocupava um amplo espaço à época. “Mas o mito não foi eliminado. Continuamos usando e criando mitos em nossas vidas a cada dia. A indústria cultural lança os novos mitos para saciar a nossa ‘sede’ e nossos desejos”, defende a filósofa.

Márcia Tiburi diz que por mais que se queira eliminar de cena certos mitos, pela força arquetípica de que está imbuído, isso não seria possível. “Vide o caso de Édipo (Édipo Rei, Sófocles, séc. V a. EC.), cujo mito se repete nas estruturas das famílias e mesmo na história da literatura. Um exemplo é o caso de Hamlet (de Shakespeare), que se configura como a renovação da estrutura do Édipo”, lembra, ao reforçar que a própria composição da literatura é uma renovação dos mitos ou um modo de mantê-los vivos. “O escritor Jorge Luiz Borges (1899 – 1986) costumava dizer que toda a literatura é uma releitura da Ilíada, da Odisseia e dos Evangelhos. Isso é até muito lógico, pois por mais que sejamos seres humanos com estilos e gestos diferentes, no final das contas estas diferenças são milimétricas”, reforça.

Tiburi explica que Platão, no “Timeu”, foi o primeiro filósofo a dizer que as mulheres tinham um animal dentro do seu corpo (o útero). Para ele, este animal quando estava insatisfeito perturbava tudo, inclusive o raciocínio. Por esta visão, tratava-se de um órgão atuando por outro órgão. “Talvez isso é o que tenha feito, segundo dizem as más línguas, Schopenhauer (1788-1860) dizer que as mulheres pensam com os ovários”. E como é visto útero, então? É este grande buraco, que ao mesmo tempo é o representante da animalidade do ser humano. A mulher, desta forma, passa a ser compreendida não como alguém que é dominada por seu cérebro – portanto, não é um sujeito capaz de fazer uso de sua racionalidade –, mas por viver “sendo capturada por essa animalidade que vem se dizer com toda a força”.

Em relação a Kant, Márcia Tiburi destaca que ele vai deixar explícito em vários textos que é preciso buscar e realizar, o tempo inteiro, o ideal de humanidade, posto que se não se realizar tal ação “estaremos sempre submetidos à menoridade da nossa condição humana”. Tiburi lembra que o filósofo prussiano deixa muito claro que as mulheres só podem participar desta humanidade de maneira restrita, enquanto são tuteladas por seus maridos. Assim, numa retomada ao ideário grego, competiria às mulheres ser o belo sexo, “bibelôs que ficam dentro de casa, num bem decorado campo de concentração, enquanto os homens vão para a esfera pública exercer o poder”. E é justamente neste ambiente de amplo debate sobre a condição humana, com a ênfase de Kant, que as mulheres começam a reivindicar sua posição dentro deste ideal de humanidade. Isso ocorre entre o final do século 18 e início do século 19. Uma dessas mulheres é Mary Wollstonecraft (1759 – 1797), que foi uma das primeiras a questionar as diretrizes deste ideal. É ela, assim, que define o feminismo como uma busca pelos direitos da humanidade, sem restringir a abrangência ao universo dos direitos das mulheres.

Voltando a questão do mito, Márcia Tiburi diz que ele surge quando não se tem uma resposta lógica e racional, que possa ser testada de forma empírica. Assim, “para o nosso medo da morte, criamos Deus. Ou livros, filhos e plantamos árvores. Todos estes são mitos”. Em síntese, o mito é a resposta para o vazio que é promovido por uma pergunta cruel que envolve um sentido, e que faz sofrer. A resposta do mito, portanto, é no sentido de que o sofrimento seja amenizado.

E por que o sexo se transformou num mito? “Porque o sexo virou a grande resposta para o nosso sentido. Sobre isso, o livro ‘A história da sexualidade’, do Foucault, é uma das poucas obras que alerta para a questão de que o sexo teria sido uma armadilha da qual nós, até agora, não conseguimos nos livrar. E que espécie de armadilha é essa? Ora, é o mito no qual a gente acredita. Ou seja, acredita-se que o sexo nos constitui como algo essencial. Que ao descobrirmos o sexo, descobriríamos quem somos”, arremata Tiburi.

Conversação

A filósofa lembra que quando Freud inventa a Psicanálise, ele altera o formato da conversação. Se a filosofia, em seu início nos pré-socráticos – sobretudo em Pitágoras, passando por Platão e Aristóteles –, era conversação num diálogo que só poderia ocorrer entre homens, Freud começa a ouvir as histéricas que manifestavam no corpo o mutismo em relação à linguagem, na virada do séc. 19 para o séc. 20. “Como se o corpo viesse a revelar aquilo que ficou proibido de se dizer na linguagem organizada e discursiva que utilizamos para se comunicar. O corpo, então, manifesta aquilo que não foi dito”, destaca Tiburi.

Freud descreve que os casos de histeria, em parte, estavam ligados à abstinência sexual. Mas ele fala também, no caso da paciente Anna O., que a mulher é tolhida ao não ter direito de viver dentro da esfera pública. No caso específico de Anna O., isso foi observado porque toda vez que ela fazia um exercício de intelecto, ao falar sobre sua vida, ela ficava bem. “Então Freud faz uma revolução, no território da linguagem, ao modificar a cena da conversação, quando passa a ouvir uma mulher. Isso ocorre depois de tentar o uso da hipnose. Ali houve um princípio de revolução feminista”, diz Tiburi, mesmo que este não fosse o foco do pai da psicanálise.

Márcia Tiburi lembra que Freud é muito criticado por parte das feministas, “mas este ato corajoso [de ouvir as mulheres] ninguém ainda tinha tido. Isso deve ser creditado a ele”. Freud então passa a supor que lá, naquilo que a mulher tem a dizer, encontra-se um saber. “Ele estava confiando num saber que aquela pessoa detinha por ter experimentado a própria vida”, pontua Tiburi. Esta foi uma verdadeira revolução, que inclusive exerceu forte impacto sobre toda a filosofia.

A mudança de ênfase envolveu uma escuta, então, para tudo aquilo que não podia ser dito. Trata-se de uma escuta do mutismo. “Se isso não é contraditório, no mínimo é dialético. Como eu vou escutar o mudo? Já que ele é aquele que não fala? Eu tenho que reconhecer que ele se declara em outro lugar. E que lugar é esse? É o corpo”, esclarece a filósofa, que acrescenta: “Ouvir a voz que não se diz. Esta é também uma questão filosófica”.

O masculino e o feminino

De acordo com Márcia Tiburi, o que há de mais desconcertante a se falar para uma mulher é que “ela é tão feminina, porque tem as mãos delicadas e a pele tão delicada”… Haveria uma redução do feminino à delicadeza. “No entanto, esta é uma construção patriarcal que está em todos os lugares. Não se tem mais como fazer uma genealogia que nos leve à origem do patriarcado, porque toda a história, linguagem e racionalidade é patriarcal. Pode-se escapar disso? Só reconstruindo a partir de uma crítica consistente e interna ao patriarcado”, observa Tiburi, ao acrescentar que o mundo público é dos homens, e o mundo privado também é deles, “porque ele é interno à esfera pública. O feminino, assim, é uma construção deste patriarcado”.

A filósofa lembra que muitos(as) autores(as) e feministas declaram que o feminino é uma essência, uma natureza que precede as construções sociais e históricas. No entanto, isso que se chama de feminino é algo extremamente amplo e vago, a negativa de um paradigma do que seja o masculino. Este último é colocado de forma mais precisa, por estar configurado no universo público das ações e das decisões. “A grande pergunta é: de que me serve ser feminina? De que me serve ser uma mulher? De que me serve acreditar no meu sexo? Se não escolhemos nosso sexo ao nascer, somos a nossa própria condição, como defende Ortega y Gasset. O meu corpo, neste sentido, me é inexorável. Eu não posso escapar do meu corpo, nem do lugar geográfico que meu corpo ocupa, nem da minha anatomia. Se a minha anatomia não combinar com o meu desejo, eu vou conviver dentro de um conflito. Pode até ser bom. Pode-se até se sentir bem vivendo dentro de um conflito”, conclui Tiburi.

E se o sexo deixar de ocupar um lugar de destaque na esfera humana, haveria o risco de colapsar o que se entende por humano? Esta indagação é limitante, pontua a filósofa, porque coloca o sexo como um sentido final. Há, antes de tudo, uma troca, uma relação. O objetivo geral, em tese, é ter uma vida criativa e produtiva, que se configure de forma justa e decente. O sexo faz parte deste arcabouço. “Quando eu fiz a crítica ao mito do sexo, eu quis mostrar que o sexo não pode ser o foco do nosso sentido. Porque o foco do nosso sentido tem que ser o único lugar onde, de fato, se configura com lucidez a noção de sentido, que é o todo. Eu não posso pensar no sentido sem pensar no todo”, explica Márcia Tiburi.

Desta forma, no contexto da relação que se estabelece com “nosso sexo, que chamamos de sexualidade, seria bem interessante que se desenvolvesse uma política do sexo”. Isso na acepção de “desrecalcar” e, no bom sentido, “desmoralizar” a moral sexual, “que atualmente é pérfida, embora a cada dia se torne menos pérfida”. A filósofa diz que as manifestações de abertura sexual que a sociedade vive atualmente são benéficas para todos. Aos poucos, começa-se a ruir a tendência a acreditar nos gêneros. “Estamos deixando de ser homem e mulher, estamos deixando de fazer aquele papel histriônico teatral do ‘eu sou mulher, você é homem’. Isso envolve respeitarmos as novas anatomias, e as possibilidades que estas anatomias trazem, mas já há um movimento de abandono de muitas das paranoias e neuroses em relação ao ideário do sexo”, arremata.

Por fim, Tiburi diz que atualmente é possível que as pessoas se declarem para além das sexualidades impostas ou dos gêneros já pré-definidos. Então, começa-se a pensar na pessoa em sua dimensão mais ampla, próxima de uma expressão de liberdade. E este sujeito passa a se afirmar pelo que ele é, não pelo que o outro espera que ele seja. Ganha força, com isso, a desconstrução de tudo o que até então sustentava o mito do sexo.

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).
Autor / Co-Autores: