Nell: a aprendizagem e o desenvolvimento para Vygotsky

O filme Nell (Jodie Foster), inicia com a morte de uma senhora eremita, conhecida pela sociedade por aparentar possuir doença ou retardo mental. Até a sua morte, todos achavam que ela morava sozinha, em uma cabana, no meio da floresta. Porém, logo se descobre que nessa cabana há mais alguém. É Nell, filha da senhora eremita, com aproximadamente trinta anos de idade. Não demora muito para que Nell se torne “objeto” de estudiosos, pois percebe-se que ela morou a vida inteira na floresta, não tendo contato com o restante da sociedade, possuindo linguagem e cultura próprias, adquiridas com a convivência com sua mãe.

O caso chama a atenção dos doutores Jerry Lovell (Liam Neeson) e Paula Olsen (Natasha Richardson), que apresentam ideias diferentes sobre ele, e essa divergência vai à júri, sendo decidido que é preciso compreender o contexto e o modo de vida de Nell, para identificar se ela necessita de algum tipo de ajuda para sobreviver. Então, os dois iniciam uma jornada de observação da jovem eremita, colhendo informações sobre ela, cada um a seu modo e com alguns conflitos no começo.

Mas, passados alguns poucos meses, torna-se nítida a empatia que os doutores sentem por Nell, compreendendo, de certa forma, sua linguagem, modo de pensar e comportamentos. Porém, o cerco começa a se fechar, e ambos precisam dar uma resposta ao júri sobre o destino de Nell. Nesse tempo, ela começa a se tornar “atração” para a sociedade, devido seus modos totalmente diferentes de ser e de agir. Até então, todos se acham no direito de julgar e decidir por Nell.

Entretanto, quase no final do filme, Nell, no tribunal, dá uma demonstração de maturidade, autonomia e conhecimento da vida e dos sentimentos humanos, que surpreende à todos. Certamente, todos aprenderam muito com Nell, que mostrou saber mais do que os ditos cultos, no que tange a viver a vida de modo pleno, enaltecendo sua simplicidade e natureza. Ao final, Nell está de volta à floresta, comemorando seu aniversário com seus novos amigos.

Utilizando-se do método histórico-crítico, Vygotsky empreende um estudo original e profundo do desenvolvimento intelectual do homem, cujos resultados demonstram ser o desenvolvimento das funções psicointelectuais superiores um processo absolutamente único. Assim, do ponto de vista da aprendizagem, a importância dos estudos de Vygotsky é inquestionável, pois ele critica as teorias que separam a aprendizagem do desenvolvimento (GIUSTA, 1985 apud NEVES).

No filme, observa-se que Nell, mesmo separada da sociedade, aprendeu comportamentos e uma linguagem inerentes de sua mãe e, mesmo sendo estes diferentes da maioria, Nell se desenvolveu muito bem, sobrevivendo à seu modo. Portanto, aprendizagem e desenvolvimento ocorreram de forma mútua.

Para Vygotsky, pensamento e linguagem são processos interdependentes desde o início da vida. A aquisição da linguagem pela criança modifica as suas funções mentais superiores, dá forma definida ao pensamento, possibilita o aparecimento da imaginação, o uso da memória e o planeamento da ação. Neste sentido a linguagem sistematiza a experiência direta da criança e, por isso, adquire uma função central no seu desenvolvimento cognitivo, reorganizando os processos em desenvolvimento ao pensamento. Ou seja, ambos ocorrem de forma simultânea (BRITES e CÁSSIA, 2012).

Isso é nítido em Nell, quando mostrada sua forma de pensar. Essa está de acordo com sua linguagem, pois os símbolos e as palavras que ela usa representam aquilo que ela entende do mundo à sua volta, dos objetos, das pessoas, dos animais, da floresta, dos sentimentos, etc. Percebe-se que ela associou em seu pensamento os significados e a que se direcionam as palavras (neologismos) ensinadas por sua mãe.

Finalmente, cabe destacar que o pensamento não é o último plano analisável da linguagem. Podemos encontrar um último plano interior: a motivação do pensamento, a esfera motivacional de nossa consciência, que abrange nossas inclinações e necessidades, nossos interesses e impulsos, nossos afetos e emoções. Tudo isso vai refletir imensamente na nossa fala e no nosso pensamento (Vygotsky, 1998).

Dentro da aprendizagem de Nell, está a confiança que foi estabelecida com Jerry Lovell e Paula Olsen através da motivação do pensamento, onde Nell abriu espaço para suas necessidades, interesses, impulsos e emoções. Segundo (Vygotsky, 1998) todos esses aspectos refletem na fala e pensamento. Assim, em contato com uma nova cultura e linguagem, Nell, de certa maneira, introduziu essa nova realidade em sua vida, não modificando ela, mas compreendendo melhor aquilo que lhe é diferente. Desse modo, tem-se ao final do filme, uma “selvagem” que, ao seu modo, está socializando com outras pessoas, já suas amigas.

REFERÊNCIAS:

NEVES, R. A. DAMIANI, M. F. Vygotsky e as teorias da aprendizagem. UNIrevista – Vol. 1, n° 2 : (abril 2006).

RABELLO, E.T. e PASSOS, J. S. Vygotsky e o desenvolvimento humano. Disponível em: < http://www.josesilveira.com/artigos/vygotsky.pdf>. Acesso  em: 25 de out, 2016.

BRITES, I. CÁSSIA, R. Vigotsky, L. S. (2005). Pensamento e linguagem. Rev. Lusófona de Educação, no.22, Lisboa, 2012.

FICHA TÉCNICA DO FILME:

NELL

Diretor: Michael Apted
Elenco: Jodie Foster, Liam Neeson, Natasha Richardson
País:  EUA
Ano: 1994
Classificação: 16

Psicóloga em formação no Centro Universitário Luterano de Palmas - CEULP/ULBRA e estagiária no Portal (En)Cena