O Psicopata Americano: A horda primeva de uma sociedade consumista

Em 1991, Bret Easton Ellis publica seu polêmico, violento e confuso best seller, intitulado O Psicopata Americano. O livro conta a história de Patrick Bateman, um yuppie – expressão inglesa que significa “Young Urban Professional” – Jovem Profissional Urbano – (Significados, 2012), que durante o dia mantém uma imagem de “bom samaritano” e durante a noite satisfaz sua sede de sangue. Não, não é uma história sobre vampiros, mas sobre um homem adoecido que necessita assassinar pessoas.

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Vice-presidente da Pierce & Pierce, notável empresa situada na Wall Street, Bateman é um jovem adulto de apenas 27 anos de idade e com um poder desejado por muitos. Com uma rotina incansável de culto ao próprio corpo (o segundo capítulo é destinado apenas para descrever seu ritual de exercícios, banho, cremes, loções e afins) e de conversas acerca dos melhores restaurantes e melhores marcas com seus colegas de trabalho (fúteis como ele), o protagonista do livro representa muito bem o american way of life (estilo de vida americano)

(…) desenvolvido na década de 20, amparado pelo bem-estar econômico que desfrutavam os Estados Unidos. O sinal mais significativo deste way of life é o consumismo, materializado na compra exagerada de eletrodomésticos e veículos (Klick Educação, 2009).

O livro traz uma reflexão acerca da hipocrisia existente em uma sociedade onde as pessoas se preocupam com o bem universal da mesma maneira que se preocupam com uma pedra. Os diálogos entre Bateman e seus colegas nos restaurantes são sobre problemas mundiais, como a fome na África – cuja eles não moveriam um dedo para tentar modificar – mas, no escritório, acontece uma disputa camuflada entre eles sobre qual cartão de visita é o melhor.

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Esse capitalismo selvagem beneficia poucos e exclui muitos. Entrando na dinâmica de criar um bode expiatório, os detentores desse poder econômico acreditam não possuírem responsabilidade sobre as mazelas do mundo e acabam por culpabilizar as vítimas desse sistema. Adotam o discurso de que tais problemas são de ordem individual e não social. Eis que Patrick Bateman, mestre em colocar a culpa em suas vítimas, age de modo (perturbador) a tentar excluir do mundo quem ele acredita ser culpado por tantos problemas, assassinando tais pessoas à sangue frio.

– Perdi o emprego… – Por quê? – pergunto, interessado de verdade. – Você andava bebendo? É por isso que foi despedido? Tráfico de informações confidenciais de mercado? Estou só brincando. Não, realmente, você andou bebendo no trabalho? (…) – Estou com fome – repete – Ouça. Você acha justo tirar dinheiro de pessoas que têm emprego? Que trabalham mesmo? (Ellis, 1991, p. 161-162) [diálogo de Bateman com um morador de rua antes de esfaqueá-lo].

No mundo interno de Bateman, as pessoas não são reconhecidas por nome, personalidade ou características pessoais, mas por marcas. Ele observa tudo (aparência externa) nos mínimos detalhes, o que rende ao livro longas narrativas sobre roupas, calçados, perfumes, maquiagens, joias, penteados e o que mais for de adereço ao ser humano.

Sendo muito crítico nesse aspecto, Bateman não admite que alguém seja mais sofisticado do que ele. Infelizmente para Paul Allen, um de seus colegas de trabalho, o seu cartão de visitas era mais sofisticado do que o de Bateman. E, é claro, esse último não poderia deixar tal situação perdurar por muito tempo. Tomado de fúria por alguém possuir mais poder que ele, Bateman assassina seu colega sem titubear. Durante a narrativa, feita pelo próprio Patrick Bateman, no decorrer do livro, muitas outras mortes surgirão, por motivos um tanto quanto questionáveis, mas que, para ele, faziam todo sentido. Era algo necessário para ele, uma forma de se sentir poderoso.

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Essa atitude muito se assemelha à horda primeva, descrita por Freud em seu livro Totem e Tabu. Mais precisamente, aos filhos dessa horda, que assassinaram seu pai tirano, despojando-o do poder, no intuito de tomá-lo para si. Entretanto, esse pai se torna mais forte, seja pelo respeito ou pelo remorso (ambivalência) sentido pelos filhos ao matarem-no (Freud, 1913).

Assim como esses filhos, Bateman se encontra em uma sociedade (horda) com leis e proibições, onde, por vezes, as ambivalências de escolhas e sentimentos podem se tornar adoecedoras. À primeira vista, a saída está em matar quem lhe causa repulsa, descobrindo-se, depois do ato, que isso só agrava o problema (Bateman nunca fica satisfeito com o poder tomado do outro).

E essa é a sociedade descrita na obra de Ellis, onde a “corrida atrás do ouro” se torna algo essencial para muitos, sobrepujando até mesmo a vida, que é tirada daqueles que atrapalham o alcance do poder. Entretanto, torna-se um ciclo vicioso, uma vez que esse poder nunca é alcançado de fato, como o pai tirano da horda primeva, que não morre, apenas torna-se mais forte nas ações de quem buscou pará-lo.

Ficha Técnica
O Psicopata Americano

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Título: O Psicopata Americano (American Psycho)
Autor: Bret Easton Ellis
Publicação: 1991
Gênero: Ficção Transgressiva, Literatura pós-moderna, Sátira

REFERÊNCIAS:
ELLIS, B. E. O Psicopata Americano. Tradução de Luís Fernando Gonçalves Pereira. Editora Rocco. Rio de Janeiro — 1992. 330 p.
FREUD, S. Totem e Tabu e outros trabalhos. Vol. 13 (1913-1914). 147 p.
Klick Educação. American Way of Life. 2009. Disponível em: https://goo.gl/Ls4Kw7. Acesso em: 22 mar. 17.
Significados.
O que são Yuppies. 2012. Disponível em: https://www.significados.com.br/yuppies/. Acesso em: 22 mar. 17.

Psicóloga em formação no Centro Universitário Luterano de Palmas - CEULP/ULBRA e estagiária no Portal (En)Cena