Pollyanna: uma arma contra a ansiedade e o tédio

– Oh, o jogo é encontrar em tudo qualquer coisa para ficar alegre, seja lá o que for, explicou Pollyanna com toda a seriedade. E começamos com as muletinhas.”

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Pollyanna, considerado um clássico da literatura, foi escrito pela norte-americana Eleanor Hodgman Porter e publicado no ano de 1913, sendo traduzido para o português em 1934 por Monteiro Lobato e publicado pela Companhia Editora Nacional na coleção Biblioteca das Moças. O enredo do livro gira em torno de Pollyanna que se vê órfão e vai morar com uma desconhecida que, apesar de muito rica e sozinha, não recebe a garota com alegria, mas a encara apenas como um dever a ser cumprido.

A estória se inicia com Miss Polly Harrington dando ordens a criada da casa, Nancy, para que limpasse e preparasse o quartinho do sótão, pois uma pessoa iria morar com ela e passaria a ocupar aquele cômodo. Assim que Pollyanna chega ao belo solar de venezianas verdes que irá se tornar o seu lar e é conduzida ao seu futuro quarto, ela tem um vislumbre dos demais ambientes e da riqueza com que são decorados, o que a faz ansiar pelo momento em que descobriria o seu lindo quarto com cortinas, tapetes e janelas, entretanto, quando finalmente chega ao seu destino, Pollyanna encontra um cômodo de paredes nuas, janelas sem cortinas, armário sem espelho e desprovido de tapetes.

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A sua primeira reação é atirar-se no chão e chorar, porém ela logo transforma a paisagem que via pela janela em um quadro, alegra-se por ter poucas coisas, pois assim seria mais rápido desfazer a mala e encontra na falta de um espelho a felicidade de não ter que ver as suas sardas diariamente. Toda essa reação inesperada causou grande estranheza em Nancy, que não entendia como a alguém poderia alegrar-se diante de tal situação.

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A primeira vez em que Nancy expressa à Pollyanna com o fato de ela ficar contente com tudo é esquisito, a garota explica tratar-se do “Jogo do Contente”.

Tudo começou quando Pollyanna pediu um presente. As condições em que vivia mal permitiam que suas necessidades básicas fossem supridas e frequentemente lhe eram enviadas doações de caixas com roupas usadas e alguns objetos, assim, escrevem para que enviassem o desejado na próxima caixa, porém, quando esta chega, no lugar de seu presente, haviam mandado um par de muletinhas e foi então que o “Jogo do Contente” teve início. Seu objetivo era sempre, em qualquer situação, encontrar algo com que contentar-se. As muletas, dessa forma, trouxeram alegria justamente pelo fato de Pollyanna não precisar delas para viver.

A partir de então, Pollyanna começa, aos poucos, a conquistar todos ao seu redor com sua bondade, pureza e alegria contagiante, sempre brincando do “Jogo do Contente” e o ensinando a quem quer que fosse, até o momento em que a própria Pollyanna e sua capacidade de encontrar contentamento em tudo é posta a prova.

– Oh, estou respirando o tempo todo, mas fazer isso não é estar vivendo A senhora respira todo o tempo que está dormindo e quem dorme não vive. Quero dizer vivendo, isto é, fazendo coisas de que a gente gosta, como brincar lá fora, ler para mim mesma, subir no morro, conversar com o senhor Tom e Nancy no jardim, e saber tudo a respeito das casas e das pessoas que moram nas lindas ruas por onde passei. Isso é o que eu chamo viver… Respirar só, não é viver.”

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A obra de Eleanor H. Porter foi responsável por desencadear uma grande onda de esperança, otimismo e boa vontade, porém existe sempre os dois lados da moeda.

Chamar alguém de Pollyanna ou afirmar que alguém é acometido pela “Síndrome de Pollyanna”, geralmente, não é visto como um elogio, ao contrário, o termo faz referência a uma pessoa alienada, que tende a enxergar o mundo e as emoções de maneira ingênua e age de forma inconsequente. Indivíduos assim vivem em uma realidade paralela, em um mundo cor de rosa, chegando o termo a ser usado até como forma de descrever o posicionamento do Poder Judiciário brasileiro.

O grande questionamento gira em torno do fato de que ninguém consegue estar feliz o tempo todo e que pessoas que agem de tal forma, ao invés de contagiarem os outros, tendem a ser consideradas falsas e enjoadas, pois é natural ao ser humano manifestar sentimentos de raiva, tristeza e decepção, além de muitos acreditarem ser impossível ver sempre o lado bom das coisas.

Entretanto, a personagem do livro, apesar de sempre buscar colocar em prática o seu querido “Jogo do Contente”, não era imune aos sentimentos negativos, chegando a afirmar que “não consegue pensar agora em uma só coisa que a possa fazer contente”. Pollyanna, apesar de sua personalidade viva e otimista não era uma alienada, mas alguém que buscava não se deixar abater pelas adversidades da vida e é essa a principal lição do livro. Não se trata de negar os sentimentos de dor e fingir que eles não existem, mas mudar a nossa perspectiva, o modo de encararmos situações que outrora se mostravam desafiadoras. É nesse contexto, então, que podemos fazer do “Jogo do Contente” uma verdadeira arma contra dois grandes vilões: a ansiedade e o tédio. 

A ansiedade pode ser descrita como um estado emocional desconfortável, de apreensão, uma inquietação em relação ao futuro ou a expectativa de que algo ruim irá acontecer. É comum a ansiedade aparecer quando nos sentimos desafiados ou incapazes de realizarmos algo, por exemplo. Dessa forma, por que não usarmos tais situações a nosso favor? Por que não encararmos desafios que poderiam ser a causa de sentimentos de ansiedade e incerteza, como uma maneira de extrairmos o máximo de aprendizado possível? Se nos sentimos inseguros, por que não jogarmos o “Jogo do Contente” e buscarmos algo que, futuramente, nos tornará mais fortes?

De maneira oposta, o sentimento de tédio é aquele que pode aparecer quando você se sente pouco desafiado, ou pela demora no desenvolvimento de algo, ou ainda perante situações previsíveis e inevitáveis, porém, é justamente diante das circunstâncias mais entediantes que nossa criatividade pode ser melhor desenvolvida. Aproveitar esses momentos e buscar soluções criativas para nos tirar desse estado de chateação e enfado nada mais é do que jogar o “Jogo do Contente”. Situações pouco desafiadoras nos dão a oportunidade de sermos os melhores no que estamos fazendo, e a liberdade de ousarmos na busca de novas soluções.

Assim, o “Jogo do Contente, por mais simples, ingênuo e, à vezes, irritante que possa parecer, pode ser aplicado nas conjunturas mais incomuns não apenas como forma de encontrarmos algo que nos deixe contentes, mas também para nos ensinar que devemos tirar o máximo de proveito de toda e qualquer situação e usá-las como maneira de nos desafiar a melhorar, impusionar o nosso crescimento e superar o tédio.

Em tudo há sempre uma coisa capaz de deixar a gente alegre; a questão é descobri-la.”

FICHA TÉCNICA DO LIVRO:

POLLYANNA

Fonte: http://zip.net/bqtNxP

Título Original: Pollyanna
Autor: Eleanor H. Porter
Tradução: Monteiro Lobato
Editora: Companhia Editora Nacional
Páginas: 181
Ano: 1913

REFERÊNCIAS:

RODRIGUES, Rafael Rezende. Ansiedade: por um ansioso, 2011. Disponível em: > http://encenasaudemental.net/personagens/ansiedade-por-um-ansioso/< Acesso em: 4 de junho de 2017.

MARINHO, Wallace Andrade de. Apontamentos da medicina, frente ao distúrbio emocional da “Ansiedade”, 2012. Disponível em: > http://encenasaudemental.net/comportamento/insight/apontamentos-da-medicina-frente-ao-disturbio-emocional-da-ansiedade/<. Acesso em: 4 de junho de 2017.

ROBSON, David. Por que é bom sentir tédio, 2015. Disponível em: > http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/01/150118_vert_fut_beneficio_tedio_ml<. Acesso em: 4 de junho de 2017

FOLGUEIRA, Laura. O lado bom do tédio, 2016. Disponível em: > http://super.abril.com.br/saude/o-lado-bom-do-tedio/<. Acesso em: 4 de junho de 2017