Psicólogo diz que profissional tem que ouvir mais para conseguir empoderar os sujeitos

No segundo dia de conferências do III Fórum Internacional: Novas abordagens em saúde mental – Rio de Janeiro, a temática do psicólogo norte-americano Oryx Cohen sobre “Grupos e Redes de Ouvidores de Vozes” dominou os debates.

O The Hearing Voices Approach (Abordagem Ouvir as Vozes) consiste numa dinâmica de ouvir uma voz ou vozes que são inaudíveis para outros, num contexto em que até então estas vozes (comparadas à psicose ou, em casos mais graves, com a esquizofrenia) eram rotuladas como sintomas de psicopatologias. De acordo com Oryx, no entanto, não significa que alguém esteja mentalmente doente. Mas, então, como é possível ouvir vozes e ser saudável? Como é possível sair da tentativa de “enquadramento” por diagnóstico e, em seguida, intervir a partir dos saberes estabelecidos pela Psicologia?

Primeiro, para o psicólogo Oryx é necessário que o Grupo de Ouvidores de Vozes (que só pode ser composto por pessoas que ouvem vozes) e/ou as Redes de Ouvidores de Vozes (que aceitam pessoas que não ouvem vozes, mas entendem o processo) deve manter uma espécie de núcleo ético que seja impermeável a alguns aspectos, como a não interferência ou intervenção dos chamados saberes das abordagens clássicas – “afinal, quem melhor do que a própria pessoa para falar de suas demandas?”, questiona Oryx – além de primar por uma conexão estreita entre os integrantes e, por fim, tornar os grupos ou redes como uma dinâmica de comunidade, para evitar serem enquadrados como serviços de saúde mental (o que por si só já implicaria na sobreposição de um saber sobre a vivência de cada integrante do grupo).

De acordo com Oryx, estudos de longo prazo concluídos há alguns anos nos Estados Unidos apontaram para uma eficácia muito maior em abordagens que procuram mergulhar nos universos particulares de cada integrante eventualmente estigmatizado com transtorno mental. “É preciso evitar linguajar técnico, além de que os facilitadores de tais grupos deve se colocar como igual, deixando os seus títulos acadêmicos na entrada do local”, alerta. O pressuposto, então, é enfatizar a experiência de ouvir vozes como um terreno rico de significados e de originalidade. “Perceber o ouvidor de vozes por este prisma amplia a empatia do facilitador e possibilita o desenvolvimento dos integrantes dos grupos”, diz Oryx, ao afirmar que Pesquisa e prática desenvolvidas em parceria com ouvidores de vozes pelos últimos vinte e cinco anos indicam que é este o melhor caminho até este momento.

O III Fórum Internacional: Novas abordagens em saúde mental – Rio de Janeiro é promovido pelo Centro Educacional Novas Abordagens Terapêuticas – CENAT – e conta com o apoio do IPUB/UFRJ (Instituto de Psiquiatria ligado a UFRJ).

Grupos e Redes de Ouvidores de Vozes

Há Redes de Ouvidores de Vozes em 35 países do mundo, incluindo o Brasil. Há mais de 170 grupos de Ouvidores de Vozes só na Inglaterra.

Esta abordagem empoderadora de ajudar pessoas (tanto adultos como crianças) que ouvem vozes está sendo desenvolvida hoje no Brasil. Ela também já tem encontrado impacto significante no modo como ouvidores de vozes e serviços de saúde mental tratam a experiência de ouvir vozes. Esta mudança de perspectiva tem levado a transformações importantes na prática de provedores de serviço em respeito a intervenções com pessoas que ouvem vozes, assim como o desenvolvimento de uma vigorosa rede de suporte de grupo.

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).
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