Ser ou não ser psicopata, qual o remédio?

A personalidade dos grandes homens faz-se das suas incompreensões.

ANDRÉ GIDÉ

Cheguei com o livro Psicopatas do Cotidiano a casa da minha avó, um lugar bem tranquilo nos fins de semana, para conversar um pouco com ela e, após o café com cuscuz, ler um pouco. Além dos seus setenta anos, mas curiosa como uma criança de cinco, logo perguntou do que se tratava aquele livro. Capa dourada e com um espelho no lugar do rosto de um homem, era mesmo de chamar a atenção. Respondi que era um livro da área de psicologia, com o intuito de mostrar características específicas que algumas pessoas possuem e que podem ser prejudiciais a elas e àqueles que a cercam.  Ela sorriu, disse que tinha um livro assim também. Levantou da cadeira, adentrou seu quarto, ouvi o barulho do guarda-roupa sendo aberto, revirou, fechou e surgiu sorridente com seu “guia”. Em suas mãos estava o Horóscopo 2016. Folheando, disse que aquele livro já tinha “avisado” ela sobre muitas pessoas e, com o adicional, ajudava a escolher os melhores dias para comprar, vender ou viajar. Sem graça, respondi que não era a mesma coisa, que o meu livro era baseado em pesquisas e o dela em superstição. Com a sabedoria da idade, não se ofendeu, mas me desafiou, pediu para ler alguma coisa que parecesse interessante e científico para ela. Sem pensar muito, abri no capítulo que falava dos obsessivos-compulsivos, como são apegados a regras, com tendências a inflexibilidade e comportamento rígido e teimoso. Do nada, ela falou alto: VIRGEM! Fiquei sem entender… vendo minha cara de tonto, ela esclareceu que aquelas características eram “sem tirar e nem por” de virginianos, signo considerado muito organizado, beirando a chatice. “Veja o caso do seu tio João, só vive para trabalhar e ir à igreja. E junto tem que ir a família.” Fiquei refletindo, tio João realmente tinha traços de personalidade obsessivo-compulsivo. Bufei. Não satisfeito pulei para outro capítulo. Narcisistas – conhecidos por sua busca por atenção, o que pode, às vezes, levar a arrogância e insolência. LEÃO! Bradou inesperadamente. “Lembra do teu primo Leandro, aquele metido, só porque fez medicina acha que é melhor que os outros.” Suspirei, as lembranças que tinha do primo não me deixavam negar, ele era um tremendo narcisista. Não querendo mais jogar com o acaso, apelei ao índice, decidido a escolher a psicopatia mais moderna e estranha que tivesse ali, nada que levasse a personalidades que minha vó poderia conhecer com sua experiência. “Ouve esse, vó. Bordeline”. Nome estrangeiro, pronúncia difícil. Citei as características: não se ajusta as normas sociais, incapacidade de planejar o futuro, descaso com a própria segurança e… ÁRIES! Disse animada, como se estivesse em um bingo. “Lembra daquele teu amigo, Zezinho? Era sábado e domingo bebendo, sempre com uma namoradinha diferente. Falava que ia ganhar muito dinheiro com um novo negócio, mas só sabia gastar o dinheiro do pai.” Fiquei olhando para o rosto da minha vó, satisfeito na sua sabedoria, e tinha que concordar – José era um borderline nato. Deixei o meu livro sobre a mesa e, humildemente, pedi que ela me emprestasse o dela. Esperta, passou o seu tesouro para mim e complementou “O melhor é que todo ano sai uma edição atualizada.”

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A pequena crônica acima serve para reflexão sobre o livro da psiquiatra Katia Mecler, Psicopatas do Cotidiano (Ed. Leya, 2015) que procura caracterizar, com uma linguagem acessível, transtornos de personalidades normatizados pela Classificação Internacional de Doenças (CID-10) e no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Assim temos dez transtornos – esquizóide, esquizotípico, paranóide, antissocial, borderline, histriônico, narcisista, dependente, evitativo e obsessivo-compulsivo. – divididos em três grupos distintos – os “excêntrico-esquisitos”, os “dramáticos-emocionais-volúveis” e os “ansiosos-temerosos”.

Classificar é uma característica da espécie humana. Fazemos isso com tudo que permeia nosso ambiente, de plantas, pedras a nuvens. Nomear traz segurança, passamos a entender os “sinais” que determinado ambiente emite para que o ser humano melhor usufrua dele, em miúdos, criamos uma sensação de controle. E é assim também com a nossa espécie. O primeiro a fazer tal tentativa foi Hipócrates, na Grécia Antiga, que caracterizava o homem em quatro tipos: sanguíneo, fleumático, colérico e melancólico. Já no século XXI, há várias formas de classificação e estas dependerão da proposta a que é direcionada, seja para descobrir talentos, líderes ou transtornos.

Transtornos de personalidade, segundo Mecler (2015, p. 55), são perturbações mentais, caracterizadas por uma alteração no desenvolvimento da personalidade, decorrente de falhas na estruturação do caráter. Para a autora, a personalidade seria a junção de duas características:

(…) a interação entre dois componentes: o temperamento e o caráter. O temperamento é herdado geneticamente e regulado biologicamente. Já o caráter está ligado à relação do temperamento com tudo o que vivenciamos e aprendemos na relação com o mundo (MECLER, 2015, p. 24).

Assim, se a personalidade é o que define o homem, qual o parâmetro utilizado para identificar os transtornos sem buscar uma massificação ou eliminação do que distinguiria uma pessoa de outra? Simples, a própria sociedade. A autora, no decorrer do livro, demonstra que cada transtorno tem sua época para classificá-lo de maneira positiva ou negativa – vide a cultura narcisista atual em comparação com os evitativos do século XIX. Ou seja, podemos nos achar únicos, mas a realidade é que nos adequamos socialmente. A máxima “nasceu na época errada”, tem seu fundo de verdade

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Outro fator preponderante para levar a identificação, classificação e tratamento de tais psicopatias é a necessidade do mercado em manter uma população apta para produção e consumo, como esclarece Miguel Chalub no prefácio do livro:

Na Idade Média eram considerados no máximo como marginais (à margem da sociedade): vagabundos, prostitutas, bandoleiros, mendigos e outros, mas não “doentes”. Agora, no entanto, era preciso que entrassem na ordem de produção. O capitalismo, em especial o industrial, não tolera aqueles que não produzem (2015, apud MECLER, p. 12).

Com esse pensamento, transformamos, teoricamente, grupos de marginalizados em potenciais consumidores (usuários de remédios e práticas terapêuticas) e, também, produtores (enquanto medicados, aceitos socialmente). Imagina internar, no antigo modelo psiquiátrico, todos aqueles diagnosticados com transtorno de personalidade antissocial ou narcisista?! Esvaziaríamos o Congresso Nacional e o Facebook.

Mecler, durante todo o livro, faz ressalvas aos leitores quanto aos julgamentos que possam ser tomados ao passar os olhos por cada transtorno.

Quando o excesso de rigidez e a repetição de aspectos comportamentais, a partir da adolescência, assumem um padrão negativo, que causa prejuízos diversos nas relações interpessoais, podemos ter o indicativo de um traço patológico de personalidade (MECLER, 2015, p. 247).

Como o ditado popular avisa que de médico e louco, todos temos um pouco, a advertência é clara para não termos leigos (possivelmente com traços encontrados no livro) diagnosticando parentes, amigos e colegas de trabalho. Até porque a própria Associação Americana de Psiquiatria tem suas ressalvas

Tanto o DSM-5 quanto a CID-10 não consideram uma condição médica (as psicopatias). Apesar de muito debate, a hipótese mais aceita hoje é de que se trata de um transtorno grave de personalidade antissocial (Idem, 2015, p. 58).

Com ressalvas até para os profissionais da área, é necessário atenção e cuidado com o conteúdo do livro – ótima introdução para futuros psicólogos e psiquiatras – e visto como conteúdo para conversas com os amigos ou para aqueles que, após um diagnostico correto, queira conhecer mais sobre o transtorno que alguém ou o próprio esteja passando. Até porque será mais tolerável alguém lhe apontar o dedo e dizer, “típico de um leonino” do que um apocalíptico “procura um tratamento, você está com traços narcisistas”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A crítica, talvez insustentável na sua forma, mas não ao seu conteúdo, está para a praticidade do título, sutileza publicitária de um livro de receitas (Psicopatas do cotidiano: como reconhecer, como conviver, como se proteger). Trata-se de um exagero ou uma simples brincadeira, porque quando o leitor olha para a capa, se depara com a própria face a encará-lo.

FICHA TÉCNICA DO LIVRO

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PSICOPATAS DO COTIDIANO : COMO RECONHECER, COMO CONVIVER, COMO SE PROTEGER

Autor: Katia Mecler
Editora: Leya
Ano: 2015

Lista de figuras:

Figura 1-http://www.updateordie.com/wp-content/uploads/2015/07/1Toilet-Paper-Roll-Masks-by-Junior-Fritz-Jacquet-990×7391.jpg

Figura 2-http://2.bp.blogspot.com/-tHHh4x3RBsI/U-1wgcbwuGI/AAAAAAAAADo/B1OKM8yhrlY/s1600/faces.jpg

Figura 3-https://ominutodosaber.files.wordpress.com/2011/08/varias-faces.jpg

Figura 4-http://necesitodetodos.org/wp-content/uploads/2013/02/mascaras-personalidad-enga%C3%B1o.jpg

Figura 5-http://www.leblogdefanaworld.fr/wp-content/uploads/2013/09/i-robot-wallpaper.jpg

Figura 6-http://f.i.uol.com.br/livraria/capas/images/15238233.jpeg

Douglas Erson
É licenciado em Letras (UFT), graduando em Educação Física (CEULP/ULBRA), pós-graduado em Revisão de Textos (Universidade Gama Filho), instrutor de Yoga e Tai Chi Chuan, e colaborador do jornal O GIRASSOL.