“Sexta-Feira 13” e as instâncias da personalidade em Freud

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Com todo, el grado em que este trabajo de cámara fuerza La identificación del espectador com el asesino sigue siendo uma cuestión abierta a debate.
Paul Duncan

Em 9 de maio de 1980, estreou nas salas de cinema americanas uma das mais prolíficas e improváveis séries de terror da história do cinema: Sexta-feira 13 (Friday the 13th). A história do assassino que persegue jovens em um acampamento aterrorizou multidões e lucrou com o medo: o primeiro longa custou míseros 500 mil dólares e teve o saldo final de cerca de 40 milhões.

No lado oposto, a crítica especializada da época nunca entendeu o desejo do público de ver e participar de uma chacina – por que ao contrário dos antecessores do gênero, em Sexta-feira 13 – e seus congêneres – o expectador observa tudo a partir da perspectiva do serial killer, com todos os detalhes sórdidos: o voyeurismo, a perseguição, o acuamento para, por fim, o assassinato. Logo, o público passou de mero expectador para cúmplice na história. Para Jonathan Penner

[…] no existe una respeuesta fácil al interrogante de por qué las películas gore gozan de tanta popularidad. […] lo que no puede negarse es que estas películas atraen a um público muy diverso em momentos muy distintos y por razones diferentes, y que continuarán generando acalorados debates em hogares, aulas y tribunales (JONATHAN PENNER, p. 26, 2008).

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No total, em três décadas, temos doze filmes acompanhando a saga do assassino mascarado e suas brutais e criativas formas de matar – que só as mentes sem limites dos roteiristas de Hollywood são capazes de conceber. O último capítulo, lançado em 2007, arrecadou, para surpresa de muitos, quase cem milhões de dólares ao redor do mundo. Feito invejável para uma franquia que consiste basicamente em jovens, drogas, sexo e morte. Mas o que há de tão especial nesse produto que se tornou objeto de culto? Porque as massas ainda respondem a essa experiência de encontrar a representação de um bicho-papão e sentir medo e terror associados à punição de comportamentos considerados subversivos na sociedade ocidental? Acredito que, literalmente, Freud explica!

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O Id, o Ego e o Superego – Juventude, a garota final e Jason

Na teoria psicanalítica, Freud desenvolveu uma topografia do aparelho psíquico necessária para estruturar e explanar os conteúdos mentais e sua atuação e dinâmica na personalidade do homem. O primeiro sistema, segundo Talaferro, consistiu em dividir a psique em três planos delimitados

[…] Deve-se considerar que são forças, investimentos energéticos que se deslocam de certa forma, que têm um tipo de vibração específico e que vão todas estruturar os três sistemas que Freud denominou e dividiu topograficamente em Inconsciente, Pré-consciente e Consciente, cada um deles com características determinadas (TALAFERRO, 1996, p. 38).

Mas o que nos importa aqui é sua segunda teoria, que trouxe a tona as três instâncias da psique: o id, o ego e o supergo.  A instauração dessa nova perspectiva, segundo Laplanche e Pontalis (2001, p 125) trouxe a possibilidade de novas orientações, ampliando a base psicanalítica da análise além do inconsciente, voltada para a análise do ego e dos mecanismos de defesa do superego. Essa dinâmica existente entre as três instâncias pode ser, analogamente, transportado para o universo presente nos dois primeiros filmes da série Sexta-feira 13; assim, talvez a psicanálise consiga explicar porque filmes do gênero até hoje atraem tanta audiência.

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O Id ou a geração “Sexo, Drogas e Rock & Roll”

O acampamento Cristal Lake é o local onde ocorrem os massacres de praticamente todos os filmes. E é bem apropriado: ele se restringe a algumas casas construídas a beira de um lago no meio da floresta para receber turistas e jovens nas férias. Essa peculiar característica será destrinchada em um artigo posterior, mas para facilitar a visualização, podemos identificar todo o cenário bucólico/selvagem, presente nas produções do gênero, como um reservatório de lembranças e impulsos recalcados ou latentes que encontrarão meios de vir à tona, geralmente, da maneira violenta. Mas para isso, o conteúdo precisa encontrar o espaço perfeito para agir, e a inserção de jovens sendo vigiados por outros jovens, sem qualquer interferência adulta, é a maneira perfeita para que o ID coloque em prática todas as suas vontades e desejos, em teoria, sem receios de repreensão ou punições. Para Zimerman

Do ponto de vista topográfico (…) o ID é fundamentalmente constituído pelas pulsões. Sob o ponto de vista econômico, o ID é a um só tempo um reservatório e uma fonte de energia psíquica. Do ponto de vista funcional, ele é regido pelo princípio do prazer  (ZIMERMAN, 1999, p. 83).

Aqui, então, teríamos a juventude como a representação perfeita das pulsões do Id. Para Zimerman a pulsão (1999 p. 117) é uma fonte de excitação que estimula o organismo a partir de necessidades vitais interiores e o impele a executar a descarga desta excitação para um determinado alvo. O corpo em Cristal Lake é sensorial, observamos em uma escala cada vez maior os jovens buscarem um direcionamento para suas necessidades. É visível que todos eles carregam uma grande carga de energia que precisa ser liberta. Para Laplanche e Póntalis (2001, p. 394) uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal; o seu objetivo ou meta é suprimir o estado de tensão que reina na fonte pulsional. A chegada dos jovens ao acampamento leva a demonstrações eróticas subliminares, sua exposição não é apropriada, ainda, ao local e nem ao horário, pleno dia.

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Então temos o redirecionamento dessa energia, inicialmente, para o trabalho corporal, organização e manutenção do local, e, posteriormente, para objetos que cada vez mais dominam e desarmam as fortalezas do ego: comida, álcool e drogas. Tudo isso avançando em escala crescente enquanto o dia se esvai e a escuridão se aproxima. Esse investimento pulsional, para Zimerman (1999, p. 118) alude ao fato de que certa quantidade de energia psíquica esteja ligada a um objeto, tanto externo como ao seu representante interno, numa tentativa de reencontrar as experiências de satisfação que lhe estejam correlacionadas.

Assim, temos uma preparação do corpo, uma eroginização para na entrega total ocorrer a satisfação final. Mas existe um grande obstáculo perante o descarregamento indiscriminado da libido, que pode tanto intervir quanto proibir ou punir. O descontrole das pulsões do ID traz a tona aquele que será a lei e o juiz, a mãe e o pai, a instância psíquica que ditará os limites e as regras que devem ser seguidas para manter o equilíbrio em Cristal Lake, ou melhor, a homeostase psíquica.

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O Superego ou a sede de controle extremo de Jason Voorhees

Há aqui uma peculiaridade, que reforça o papel do vilão como uma faceta do Superego descrito por Freud: somente no segundo filme Jason ataca ferozmente os jovens em Cristal Lake. A “encarnação da morte” no primeiro capítulo é vivida por sua devotada e vingativa mãe, Pamela Voorhees (Betsy Palmer).

É coerente e, até, interessante analisarmos essa transferência de poderes de mãe para filho de acordo com a formação do superego (LAPLANCHE & PONTALIS, 2001, p. 498): “(…) a criança, renunciando à satisfação dos seus desejos edipianos marcados de interdição, transforma o seu investimento nos pais em identificação com os pais, interioriza a interdição.” Ter a mãe como a figura que se interpõe de maneira cruel diante excitações juvenis nos remete a condição do superego como agente de controle, por vezes, tirânico das pulsões do Id. Zimerman define supergo como

[…] uma estrutura composta por objetos internalizados, aos quais geralmente atribui-se um caráter persecutório, de intensidade maior ou menor e que, por meio de mandamentos, opõe-se às pulsões do Id, faz ameaças e um boicote às funções do ego, distorce a realidade exterior e, ao mesmo tempo, submete-se a ela, cumprindo as determinações sobre o que o sujeito deve e o que não deve fazer, o que sempre provoca nele um estado mental de culpas, acompanhado de medo e atitude defensiva (ZIMERMAN, 1999, p. 133).

Pamela em nenhum momento hesita ou demonstra culpa diante de seus atos, porém quando seu filho, Jason Voorhees assume o papel da mãe, como um baluarte sanguinário da moral e dos bons costumes, encontramos resquícios de piedade, mesmo que seja acessos de esquizofrenia onde a figura materna ainda mantém controle. Ao retirarmos as referências fantásticas que colocam Jason como uma “máquina invencível de matar” – às vezes com poderes paranormais – podemos afirmar que o verdadeiro mal, aquele que não remete a piedade ou arrependimentos, provem da mãe, Pamela, e sua ânsia incansável por vingança.

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Como regra clássica dos slashers movies da década de 80, drogas, sexo e, principalmente, o gênero feminino, remetem a morte. Não é somente a maconha ou a ânsia da cópula que trazem a fúria do superego nestes filmes, a presença feminina instiga a crueldade, reforça a perversidade sádica do supergo sobre o ego, decorrente das investidas do Id. Além de Sexta-feira 13 temos Halloween (1978) e O Massacre da Serra Elétrica (1974) com exemplos de personagens femininas que são mortas sem o uso de drogas ou a sugestão de sexo. Basta ter peitos!

Para o público, majoritariamente masculino, a mensagem poderia não ser clara, mas existia: o sexo feminino – com características de sedução e independência – não são aprovados. É preciso eliminar essa figura que demonstra poder e atitude e preservar somente a que traga a pureza e a inocência no seu caráter e a virgindade do corpo. Essa garota é a “final girl”, a última garota, a única que pode trazer o equilíbrio entre essas duas forças. Entre as pulsões do Id e os mandamentos do Superego, temos aquele que procura manter-se intacto nessa batalha: o Ego.

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O Ego ou a “Final Girls”

Observe a garota do centro, na foto acima. Entre os jovens, ela destoa – suas roupas têm cores neutras e cobrem todo o corpo e seu cabelo a deixa bem distante do arquétipo feminino que as outras personagens querem vender, beira a androginia. Alice (Adrienne King) é uma das monitoras do acampamento, ela é responsável, durona e mantém-se distante dos convites para o uso de drogas ou sexo que parecem pulular de forma convidativa por todos os cantos em Cristal Lake. Ela é a representação do Ego. Para Lanplanche e Pontalis (2001, p. 498), há uma relação de dependência do ego, do ponto de vista tópico, tanto para com as reinvidicações do id, como para com os imperativos do superego e exigências da realidade.

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Cada “final girl” da franquia representaria, assim, uma resolução desse conflito interno constante entre a pulsão e o controle. No primeiro capítulo, o ego, representado por Alice, deixa o superego interditar toda forma de expressão psíquica do id, de maneira gradual e silenciosa. Lanplanche e Pontalis ressaltam que a censura exercida pelo superego é inconsciente

[…] o sujeito que sofre de compulsões e interdições comporta-se como se estivesse dominado por um sentimento de culpa acerca do qual, porém, ignora tudo, de forma que podemos chamá-lo sentimento de culpa inconsciente, apesar da aparente contradição dos termos (LANPLANCHE E PONTALIS, 2001, p. 498).

Logo, as transgressões, impulsionadas pelo id, que observamos no desenvolvimento da história soariam mais emergentes do que o perigo de interdição encarnado pelo superego. Para Alice, a sobrevivência torna-se primordial quando percebe que o que está ocorrendo em Cristal Lake não é uma paz advinda pós-satisfação dos prazeres, mas sim de uma eliminação contínua de todos aqueles que resolvem não seguir “as regras da casa”. E isso, quando ocorre de maneira silenciosa, surge como ameaça a integridade do próprio ego. Assim, após a última garota escapar das investidas do id, cabe, como resolução, enfrentar a censura do superego.

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A franquia sem fim ou o eterno conflito

O intuito do texto foi identificar e analisar as instâncias das personalidades descritas por Freud presentes na franquia Sexta-feira 13. Esse mecanismo presente na construção dos roteiros, e repetido exaustivamente em continuações e outros filmes do gênero, parecem influenciar mais o inconsciente do expectador do que este possa imaginar. Em seu argumento simples podemos fazer correlações que, talvez, possam explicar porque tal “receita” permanece, praticamente, inalterada até hoje. É claro que o gênero conseguiu superar clichês e criar novos clássicos, do mesmo modo que a psicanálise ampliou seu conhecimento sobre a mente humana. Uma das características mais marcantes é a mudança radical da Final Girl para o desenvolvimento da história; esta ganhou mais complexidade, o que acaba impulsionando mudanças nas necessidades do id e nas exigências do superego. Há filmes em que a protagonista, ao final, se alia ao seu algoz e encontra sua paz nessa comunhão. Mas essa análise fica para outro texto.

REFERÊNCIAS:

DUNCAN, Paul. (Org). Cine de terror. Ed. Taschen. Espanha, 2008;

LAPLANCHE & PONTALIS. Vocabulário da Psicanálise. Ed. Martins Fontes. São Paulo, 2001;

TALAFERRO, Alexandre. Curso básico de psicanálise. Ed. Martins Fontes. São Paulo, 2001;

ZIMERMAN, David E. Fundamentos Psicanalíticos. Ed. Artmed. Porto Alegre, 1999.

FICHA TÉCNICA DO FILME:

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SEXTA-FEIRA 13

Direção: Sean S. Cunninghan
 Elenco: Betsy Palmer, Adrienne King, Jeannine Taylor
País: EUA
Ano: 2009
Classificação: 18

Douglas Erson
É licenciado em Letras (UFT), graduando em Educação Física (CEULP/ULBRA), pós-graduado em Revisão de Textos (Universidade Gama Filho), instrutor de Yoga e Tai Chi Chuan, e colaborador do jornal O GIRASSOL.