Terapia Familiar Estrutural e Boweniana em “Os Descendentes”

Os descendentes (2011) é um longa-metragem, sob roteiro e direção de Alexander Payne, baseado no livro de mesmo nome, da autora Kaui Hart Hemmings. É caracterizado pelo cenário havaiano e desconstrói a visão de que o Havaí é sempre um paraíso. Este, é um lugar como qualquer outro, onde as pessoas são suscetíveis a fatalidade de um acidente e, até mesmo, ao distanciamento familiar, que são as problemáticas da família King. Nessa conjuntura, este texto objetiva identificar os elementos característicos das abordagens da Terapia Familiar de Bowen e a Terapia Familiar Estrutural no filme e apresentando sugestões de intervenção ou tratamento da família a partir destes.

O filme narra à história da família King, composta pelo casal Mark (George Clooney) e Elizabeth (Patricia Hastie) e suas duas filhas, Alexandra (Shailene Woodley) e Scottie (Amara Miller).  Mark é um advogado e administrador que está num processo decisório de venda de uma parcela de Kauai, terras virgens que herdou com os primos. E nesse período sua esposa, Elizabeth, sofre um acidente de barco e fica em coma, enquanto isso a primogênita, Alexandra, mora em um colégio interno e a caçula, Scottie, apresenta comportamentos inadequados na escola.

A partir desse momento, Matt precisa repentinamente assumir suas responsabilidades de pai, e assim lidar com as duas filhas, tentando aproximar-se das mesmas.  Alex (apelido de Alexandra) mantém uma relação distante com pai, e de revolta com relação à mãe, conseguindo relacionar-se de forma amigável somente com o amigo (colorido, a nosso ver) Sid; e Scottie, que passava mais tempo sob os cuidados maternos, agora, a filha mais próxima de Matt.

Fonte: http://zip.net/bbtDMp
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A família descobre que a nova rotina não será fácil, pois com a proximidade do trio acontecem muitas discussões, principalmente pelo fato das filhas não respeitarem o pai como figura de autoridade.  Mark no meio de todo esse drama precisa revelar aos amigos e familiares a decisão de sua esposa em preferir não ficar ligada a aparelhos, além de enfrentar a notícia que ela o traía, fato este revelado por Alexandra, durante uma discussão.

É diante desses conflitos e da situação dramática que a família descobre pouco a pouco que todos precisam aprender a conviver em harmonia, repensando e ressignificando suas antigas atitudes para seguirem em frente. Nessa perspectiva, visando uma melhor compreensão dos elementos contidos nas teorias de Terapia Familiar, Estrutural e Boweniana, subdividiu-se estas em tópicos. E nestes, cada elemento será exemplificado a partir da obra analisada.

Estrutura familiar: subsistemas, hierarquias, fronteiras entre subsistemas (rígidas, fechadas, quase inexistentes, flexíveis, etc.)

Na Teoria Estrutural há três componentes essenciais: estrutura, sistemas e fronteiras. Considerando a estrutura familiar, são perceptíveis alguns exemplos no decorrer do filme, como por exemplo: a interação entre Matt e suas filhas Alexandra e Scottie, denota que há um padrão duradouro no relacionamento entre eles, considerando que ele, enquanto pai não sabe como se relacionar com as duas jovens. As cenas em que Matt procura estabelecer sua autoridade paterna, é repelida com desdém por parte das suas filhas, levando a crer que essa sequência – Matt tentando impor sua autoridade versus Alex; e Scottie ignorando-o – já se torna previsível aos olhos do telespectador.

Fonte: http://zip.net/bjtDN5
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Dentro desse contexto, é possível ver que há uma regra velada, na qual os integrantes da família devem proteger-se mutuamente, e exemplos disso são: quando Matt cuida da Scottie (devido ao fato da sua esposa estar no hospital); quando Alex também se preocupa com sua irmã, defendendo-a e/ou cuidando da mesma; e Matt demonstra cuidado como bem-estar da esposa, assegurando que ela receba o melhor atendimento clínico possível.

As limitações universais e idiossincráticas presentes no filme dizem respeito ao fato da mãe exercer maior autoridade sobre as filhas, tendo em vista que Matt não possui êxito nessa tarefa (no início), somente após a enfermidade de Elizabeth, é que ele passa a exercer tal função com mais afinco.  Outra demonstração de autoridade é a de Alex sobre a sua irmã mais nova, por exemplo.

Para que haja uma efetiva presença da estrutura no âmbito familiar, é preciso uma observação das interações reais que ocorrem na família. Deste modo, observa-se que Elizabeth, antes do acidente, possuía um relacionamento distante com marido chegando a iniciar outro relacionamento conjugal, fato este que culminou em uma briga entre ela e sua filha Alex. Matt, que se dedica aos negócios, e não se envolve com a criação das filhas, passa a aproximar-se delas somente quando a mulher está internada. Além disso, sobre as filhas do casal: Alex, a jovem que não concorda com as atitudes da mãe e julga o pai, por ele não saber lidar com as situações; e Scottie que mantém uma relação de proximidade com a mãe. 

Considerando que os subsistemas são as várias funções que os membros da família irão desempenhar nos mais variados contextos, temos a Elizabeth que exercia o papel de mãe em totalidade com a filha mais nova, enquanto que não acontecia o mesmo com a filha mais velha; sua figura enquanto esposa, era de alguém distante, que começava a cogitar hipótese do divórcio, já tendo iniciado outra relação extraconjugal ainda que não tenha exposto o fato para o marido, e quanto sua família de origem ela exercia o papel de uma filha zelosa e amorosa, sendo amada pelos pais e o irmão.

Fonte: http://zip.net/bjtDN6
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Outro exemplo da variação de papéis dentro da família seria o fato de Alex mostrar-se rebelde, fechada e incompreensível, em relação ao seu papel de filha, já sua interação com Sid, seu “amigo”, é repleta de leveza e carinho. E Matt que foi nomeado pela família de origem, como o responsável por cuidar da herança de toda família, decidindo qual futuro desse patrimônio, já seu papel como esposo e pai, é de ausência, não sabendo lidar com as filhas e a esposa (antes do acidente).

E o terceiro componente da estrutura familiar, são as fronteiras, capazes de regular a quantidade de contato com os outros. Uma exemplificação de fronteira é o caso de Alexandra que é exposta a uma fronteira rígida de distanciamento, já que foi enviada para um colégio interno, sendo afastada do convívio com os demais familiares, e em detrimento disso, ela ganha uma independência para tomar decisões quanto sua vida.

Considerando a Teoria Boweniana, a família King apresenta em sua estrutura: 

Algo que permite que estrutura dessa família não se abale e desmorone de vez é o fato de Matt que além de não contar com a ajuda da esposa (que está internada),  precisar lidar com as questões que vão surgindo ao longo do filme (traição, dificuldade de relacionar-se com as filhas, sogro que o culpabiliza pelo acidente da filha, decisão sobre a venda das terras da família de origem, entre outros), ele então faz um grande esforço para agir conscientemente e assim ser objetivo, tendo comportamento racional, diante dos fatos e pressões emocionais que lhe afligem, o que segundo Guerin (1987) denomina-se Nível adaptativo de funcionamento.

Existência e funcionamento de triângulos 

Segundo Nichols e Schwartz (1998), na Teoria Boweniana, quando um relacionamento não é estatístico, e que passa por períodos de distanciamento ou proximidade, podem entrar em cena os triângulos, ou seja, outra pessoa que se insere ou é inserida (ainda que de maneira sutil) na relação do casal. No caso da família King é possível ver situações de triângulos, quando Alex, filha mais velha do casal King descobre que sua mãe está traindo seu pai (revelação feita por ela, para o pai, posteriormente), e ela toma o partido dele, ao brigar com a mãe e não concordar com a situação. Ou ainda quando Mark Mitchell, o amigo da família, ao perceber que Matt está frustrado com a traição e deseja ter mais informações, acaba lhe contando o nome do homem com quem Elizabeth se relacionava. 

Grau de Coesão Familiar, Diferenciação de Indivíduos

Ainda, na perspectiva da Teoria Boweniana, o termo diferenciação do self diz respeito a capacidade de separar sentimento do pensamento, ou seja, é o grau de maturidade emocional de cada membro do sistema familiar. Este elemento direciona os indivíduos para um processo de individuação e autonomia, constituindo sua própria identidade e mesmo assim ainda se tem o sentimento de pertencimento do ciclo familiar. A diferenciação do self não ocorre quando “seus intelectos estão tão inundados de sentimento que eles são quase incapazes de pensar objetivamente” (NICHOLS & SCHWARTZ, 1998, p.321).  

A princípio, Matt tentou lidar de forma racional com os problemas que rodeavam a sua vida naquele momento, pois tinha que cuidar das filhas, assumir toda a responsabilidade da casa, contar para familiares e amigos a real situação da esposa e ainda atentar-se para os negócios da família externa (a venda da terra). Mas ao descobrir a traição da esposa, ele por alguns momentos se deixa levar pela emoção, pois todos os problemas que vinham lhe afligindo, parecem eclodir junto com essa descoberta.

Fonte: http://zip.net/bqtFQq
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Outro exemplo da variação de papéis dentro da família seria o fato de Alex mostrar-se rebelde, fechada e incompreensível, em relação ao seu papel de filha, já sua interação com Sid, seu “amigo”, é repleta de leveza e carinho. E Matt que foi nomeado pela família de origem, como o responsável por cuidar da herança de toda família, decidindo qual futuro desse patrimônio, já seu papel como esposo e pai, é de ausência, não sabendo lidar com as filhas e a esposa (antes do acidente).

E o terceiro componente da estrutura familiar, são as fronteiras, capazes de regular a quantidade de contato com os outros. Uma exemplificação de fronteira é o caso de Alexandra que é exposta a uma fronteira rígida de distanciamento, já que foi enviada para um colégio interno, sendo afastada do convívio com os demais familiares, e em detrimento disso, ela ganha uma independência para tomar decisões quanto sua vida.

Considerando a Teoria Boweniana, a família King apresenta em sua estrutura: 

Algo que permite que estrutura dessa família não se abale e desmorone de vez é o fato de Matt que além de não contar com a ajuda da esposa (que está internada),  precisar lidar com as questões que vão surgindo ao longo do filme (traição, dificuldade de relacionar-se com as filhas, sogro que o culpabiliza pelo acidente da filha, decisão sobre a venda das terras da família de origem, entre outros), ele então faz um grande esforço para agir conscientemente e assim ser objetivo, tendo comportamento racional, diante dos fatos e pressões emocionais que lhe afligem, o que segundo Guerin (1987) denomina-se Nível adaptativo de funcionamento.

Adaptabilidade e flexibilidade da família

 A flexibilidade ou adaptabilidade é o processo no qual é analisado a capacidade do sistema familiar de adaptar-se adequadamente aos desafios de amadurecimento ou/e de determinadas situações ambientais de estresse, que requer mudança na estrutura da família e até mesmo nas regras estabelecidas (NICHOLS & SCHWARTZ, 1998).

A família nuclear, no começo do filme, mostra ser bastante conflituosa e distante, e com a hospitalização da Elizabeth foi necessário que enfrentassem os desafios atuais, e os problemas emocionais existentes. Pois, de repente Matt mudaria toda a rotina da sua vida que antes era só trabalho e agora teria que aprender a se relacionar e cuidar das suas filhas. Alexandra e Scottie não teriam mais a mãe por perto, adaptando-se a novas rotinas e tudo isso modifica a estrutura e as regras estabelecidas pelo sistema familiar, notando-se que os estresses vivenciados afetaram o comportamento de todos os membros, exigindo deles nova adaptação e provocando amadurecimento.

Papéis desempenhados na família

Toda família é um sistema e a partir desse são formados os subsistemas, que vão se diferenciando e assumindo diversas funções (NICHOLS & SCHWARTZ, 1998). Assim, cada sujeito também é um subsistema que desempenham diversos papeis dentro da família.C m o coma de Elizabeth, Matt um profissional bem-sucedido, esposo e pai ausente passou a assumir novas responsabilidades tendo que administrar a vida familiar. Além disso, como primo era ele que cuidava dos negócios da família de origem.

E Alexandra filha do casal e irmã mais velha de Scottie, teria que ajudar o pai a cuidar das responsabilidades da família nuclear e para isso gostaria da presença do seu amigo Sid, pois deste modo lidaria melhor com a situação. E a Scottie, filha e irmã, que precisa do cuidado de todos por ainda ser uma criança. Cada papel exercido pelos membros da família conduz a comportamentos distintos. Por exemplo, a maneira que a Alexandra é com Sid não é a mesma forma que ela se comporta diante dos pais.

Práticas parentais; padrões de apego; relações pais e filhos;

A relação da Elizabeth com o seu pai, Scott, a partir da atitude dele diante do coma e comentários a respeito da filha, era bastante próximo uma relação de apego. Já o seu vínculo com esposo Matt parecia ser conturbado. Alexandra a filha mais velha possuía muitos conflitos com os pais. Mas, depois de tudo que vivenciaram juntos por causa do acidente a família nuclear apresentou maior aproximação física e relacional.

Comunicação: caótica, livre, aberta, fechada, de cima para baixo, ditatorial, confusa, contraditória (diferença entre dito e não dito), não verbal e verbal; ou não falado…

A comunicação entre a família é fechada e caótica, não existe diálogo dentro do contexto familiar, Alexandra, a filha mais velha possui grandes divergências com a mãe e a conversação entre as duas é conflituosa, o pai por se posicionar distante diante dos problemas da casa mantém pouco diálogo com a família. A comunicação com a filha mais nova, Scottie é mínima e não falada, pois os pais e a irmã mais velha ocultam informações sobre a família, tentando protegê-la dos conflitos familiares. A comunicação entre os membros da família, assim como o amor, o respeito e os valores sociais são de suma importância para o seu desenvolvimento emocional da família e o crescimento individual do sujeito, (SOUSA, 2012).

Fonte: http://zip.net/bqtFQr
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Poder: quem detém? Compartilhado? Autoritarismo?

Infere-se que a detentora do poder familiar é Elizabeth, pois as decisões do lar eram tomadas por ela, antes de seu acidente, assumindo o papel de “chefe” da casa, enquanto seu marido, Matt, não participava e não possuía voz ativa diante dos problemas e das situações familiares. Entretanto, após o acidente da esposa, ele teve que encarar a sua nova função na família, adaptando-se ao papel de autoridade.

Interrelacionamento: aberto, fechado. Interrompido, conflituoso, distante, mesclada

O relacionamento da família é conflituoso e distante, Matt possui relação de distância com as filhas Alexandra e Scottie, e com sua esposa Elizabeth. O relacionamento da mãe com a filha mais velha é conflituoso, há constantes brigas e desentendimentos. Alexandra tem uma forte ligação com seu amigo Sid, levando-o para sua casa no intuito de se sentir mais segura diante da situação vivida. A família foi se tornando mais unida após o acidente da mãe, que apesar das divergências existentes, se aproximaram para superar aquela difícil situação juntos.

Família integrada na comunidade ou isolada?

O casal King tinha um casal de amigos próximos Mark e Kai Mitchell e, de acordo com a fala do médico, Dr. Johntson, Elizabeth possuía vários amigos, isto nos faz inferir que ela era mais sociável. Porém, quando Matt reúne-os, refere-se aos mesmos como “melhores amigos” da família, ao modo que a família nuclear como um todo tinha uma distanciação entre os próprios membros. Ademais, também é apresentado no filme que a família King é reconhecida e integrada na comunidade, justamente pelo fato de Matt ter herdado as terras e ser o responsável por vender ou não tal herança, que causaria um impacto na população de Kauai.

Regras explícitas da família; entendidas, mas não faladas; rituais familiares

Dentre as regras explícitas da família, pode-se citar: regra para respeitar autoridades e não falar palavrão, que é constantemente desobedecida; regra para o Sid não desrespeitar os mais velhos, principalmente, Elis Thorson que possui Alzheimer e quase não se lembra da família; regra de que não podem se tocar: Alexandra e Sid; regra do Matt não falar mal da esposa na frente das filhas, e nem Alexandra falar mal da mãe na frente da Scottie.

Fonte: http://zip.net/bmtDL7
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As regras implícitas apresentaram-se na família em alguns momentos. No primeiro, Matt ficava a todo o momento fazendo planos e acordos mentalmente com a esperança que a esposa se recupere e eles retomem a vida de casados que há muito tempo não tinham, ou melhor, um contato íntimo.  E logo adiante, ele faz uma comparação da família como um arquipélago, onde cada membro é uma ilha, de modo que aos poucos a tendência é todos se afastarem cada vez mais com o tempo. Por último, tem-se a regra implícita de não contar aos pais de Elizabeth que a filha traiu o esposo. 

E ainda, percebe-se no contexto de rituais familiares: quando o Matt ou suas filhas estão em momentos de frustração costumam reagir de forma agressiva verbalmente, xingando “foda-se, dane-se, idiota, vá para o inferno”. Há também os rituais: de acampar em Kauai quando estavam passando por momentos difíceis, a mãe fazia isso com a filha mais velha; o ritual de conversar com Elizabeth mesmo ela em coma; o ritual de despedida da Elizabeth, seus pais levaram objetos que ela gostava para o leito do hospital; o esposo e as filhas fazem uma reunião com os amigos, com muita comida, para avisar sobre o falecimento em breve dela e que os mesmos poderiam visitá-la para darem “adeus”.

 E ele também procura o amante de sua esposa, dando uma oportunidade para que ele possa se despedir; o ritual funerário de Elizabeth – foi cremada e jogada no mar havaiano pelo esposo e as filhas. E, no final, Matt e as filhas criam um novo rito: assistirem TV na sala e bem próximos, diferentemente do comportamento que tinham no início do filme. 

Fonte: http://zip.net/bmtDL9
Fonte: http://zip.net/bmtDL9

Padrões intergeracionais

Matt diz inicialmente no filme, que repetiu o comportamento de seu pai (também advogado) em viver apenas do seu salário que consegue no escritório de advocacia, sem gastar o dinheiro herdado no truste, acreditando que isto ajuda na criação das filhas, pois, seguindo o pensamento de pai, gastos financeiros desnecessários poderiam deixá-las mimadas e metidas. 

Além disso, há os comportamentos autodestrutivos da mãe que se repetem na filha Alexandra. Matt se questiona o porquê das mulheres da sua vida queiram se destruir, a esposa com atividades que envolvem perigo como motos, lancha e bebida; a filha mais velha com drogas e relacionamentos com homens mais velhos. Alexandra confessa à mãe que os conflitos entre elas são causados porque ela tenta ser como a mãe, logo mais, assume ser “igual” a mãe. 

Principais dificuldades, problemas e conflitos da família? Quais são? Enfrentados ou negados? Como a família procura resolver seus problemas? 

No filme percebe-se que as principais dificuldades e problemas encontrados na família são: o acidente da mãe; a ausência do pai no lar, na vida da família; a mãe intrigada com a filha, tendo como consequência Alexandra indo para um colégio interno; Matt tendo problemas com o sogro; o mesmo tendo a notícia da traição da esposa; e, por último, a filha nova com problemas na escola. Todos estes conflitos eram negados até o momento do acidente de Elizabeth, após o ocorrido Matt e suas filhas tiveram que enfrentá-los. E ainda, ele demonstrou estar mais presente, reaproximou-se da família aumentando o diálogo com as filhas. Por fim, a família King conseguiu enfrentar a aceitação da morte de Elizabeth. 

Pontos fortes da família e seus membros; Forças de resiliência; Espiritualidade

O ponto forte é marcado pela (re)união dos membros da família. Nesse contexto, em relação aos seus membros: a filha mais velha para com os comportamentos autodestrutivos; a filha caçula compreende a situação em que mãe se encontra; e o pai passou a ter mais segurança nas tomadas de decisões, apesar de toda a pressão da cidade sobre sua decisão da venda das terras e os eventos estressores por causa do acidente e traição da esposa, Matt demonstra segurança e controle, agindo na maior parte do tempo de forma sensata, calma e racional. Deste modo, ele mostrou-se resiliente frente às adversidades. E, o aspecto espiritual não é apresentado no filme se a família tem alguma crença ou religião.

Fonte: http://zip.net/bvtFjn
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Impressão geral do funcionamento da família

Inicialmente, percebe-se que a família não tinha nenhum momento de união, havia a ausência de diálogo entre os membros desta; Matt dedicava mais horas ao trabalho do que no próprio grupo familiar. Assim com o acidente da esposa isso mudou, onde o marido passou a assumir suas responsabilidades na qual não tinha, passou ter mais conversa, dialogo com as filhas, assumindo o seu papel de pai, e orientador.

Sugestões de intervenção ou tratamento da família a partir dos dois modelos terapêuticos

A proposta sugerida à família, que está passando por uma situação delicada diante do acidente da mãe, seria a terapia familiar. Esta os auxiliaria a restabelecer os laços familiares, criando condições para que cada um cresça individualmente e tenha autonomia, (NICHOLS; SCHWARTZ 1998).

Intervenção na Terapia Familiar Boweniana

As contribuições de Bowen para a terapia familiar, são consideradas inovadoras, uma vez que em seus estudos foram abordados dois pontos centrais que segundo ele, estão presente nesse contexto familiar, sendo o primeiro ponto entendido como as forças que conduzem o indivíduo em sentido a união familiar, e o segundo ponto como sendo as forças que estimulam o indivíduo para alcançar sua individualidade. Para Bowen quando essas forças não agiam em equilíbrio e conformidade, provocavam então os processos de fusão, aglutinação e indiferenciação (MARTINS; RABINOVICH; SILVA, 2008).

Nesta intervenção o terapeuta deve, primeiramente, estabelecer o rapport, que segundo Oliveira (2005) é uma tentativa de construir uma relação empática e harmoniosa com outras pessoas, ou seja, essa técnica é utilizada para estabelecer vínculos de confiança entre o terapeuta e a família. Após o estabelecimento deste, o terapeuta deve perceber que a família está vivenciando um momento de crise, pelo acidente e a possibilidade de eutanásia da mãe. Desta forma:

O trabalho psicológico com famílias em crise visa acolher o abalo provocado no sistema, de forma que esta família possa criar novas condições de convivência, redistribuindo valores, viabilizando que a crise represente uma oportunidade de mudança e crescimento. (LACERDA, s/d, s/p).  

Dentre as técnicas mais destacadas na prática da terapia sistêmica familiar boweniana e que podem ser utilizadas como instrumentos para intervenção na família King são: Genograma, Experiências de relacionamento e Treinamento.

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A elaboração do Genograma é uma importante ferramenta, e deve ser feito juntamente com a participação da família, pois é um instrumento terapêutico que permite aos clientes confrontarem-se emocionalmente e metaforicamente com a sua história familiar (PARDAL, s/d).   Os autores Nichols e Schwartz (1998) destacam que um dos objetivos do genograma é de propiciar uma espécie de diagrama da família e assim realizar uma coleta de dados sobre a família multigeracional. E a partir do relato e construção do genograma, o terapeuta conseguirá reunir material para esboçar os padrões dos problemas contidos na família se atendo as reatividades emocionais e triangulações presentes.

Outro processo importante a ser trabalhado na intervenção, diz respeito às experiências de relacionamento dentro da família, (ibidem, 1998). E que de acordo com a terapia boweniana acontecem por meio de mudanças nos principiais triângulos existentes, com o intuito de facilitar a compreensão, encontrando e reconhecendo o papel de cada um. As reflexões e implicações trazidas pelo terapeuta em relação às problemáticas e comportamento possibilitará uma tomada de consciência por parte dos membros dessa família, acerca dos processos do sistema e assim reconhecerem o seu próprio papel neste contexto.

E por último, sugere-se o Treinamento, cujo permitirá ao terapeuta exercer suas atividades de forma direta e aberta, e assim dar suporte para que os membros da família reflitam sobre os problemas existentes no âmbito familiar. Não cabe ao terapeuta, dizer aos seus pacientes, o que eles devem fazer. O propósito do treinamento é possibilitar aos membros da família, uma reflexão acerca dos problemas emocionais existentes, e o papel de cada um nesse contexto.

Neste ínterim, a intervenção proposta para a família King, seria a de construir um genograma, para evidenciar os padrões dos problemas contidos na família, posteriormente fazer um levantamento das experiências de relacionamentos, e assim propiciar aos membros da família King uma reflexão sobre os processos dos sistemas que compõem esse núcleo familiar, e com isso oferecer atributos para a tomada de consciência sobre o papel de cada membro na estrutura familiar.

E por fim, a terceira técnica usada no processo de intervenção é o treinamento feito pelo terapeuta, que permitiria aos integrantes da família: Matt, Elizabeth, Alexandra e Scottie, um reconhecimento de cada um deles dos seus próprios self e as ligações dos mesmos com os outros membros da família. E desta forma, permitiria que a família resignifique as funções dentro do âmbito familiar, ou seja, fazer com que eles possam repensar os papéis que estão desempenhando e os aspectos emocionais presentes no contexto familiar.

Intervenção de acordo com a Terapia Familiar Estrutural

Assim como a Terapia Boweniana, a Terapia Estrutural também pode ser realizada uma intervenção na família King. Esta abordagem desenvolvida por Minuchin é considerada de utilização prática, de simples aplicação e alta inclusão. Os pilares desta teoria são a estrutura, os subsistemas e as fronteiras.

O primeiro consiste em como a família se organiza, o conjunto de regras (explícitas e implícitas) que a compõe e os padrões transgeracionais que estimulam padrões futuros.  No segundo, onde a própria família já é um subsistema, seus integrantes também são, pois trabalham em comum para realização de funções e também desempenham papeis em outros subgrupos. E o último pilar, as fronteiras, caracteriza-se por serem abstratas e responsáveis por regular a quantidade de contato com os outros grupos e com os próprios integrantes da família. E nisso, as fronteiras interpessoais oscilam entre a rigidez até a difusão. (NICHOLS E SCHWARTZ, 1998, p. 189-192).

Usualmente, a Terapia Estrutural consiste nos seguintes passos:

  1. Unindo e acomodando;
  2. Trabalhando com a interação;
  3. Diagnóstico;
  4. Destacando e Modificando;
  5. Determinando os limites;
  6. Desequilibrando;
  7. Desafiando as suposições da família.

Nesse contexto, prioritariamente, acordamos que seria essencial o estabelecimento de rapport e a elaboração do genograma, assim como na Terapia Boweniana. E, posteriormente, aplicamos teoria de Minuchi, isto é, utilizamos tais passos para formular uma intervenção adequada à família de Matt.

Fonte: http://zip.net/bltDmp
Fonte: http://zip.net/bltDmp

Em relação ao primeiro item, unindo e acomodando, a terapia familiar é proveniente de grandes desafios e confrontos, que interferem diretamente o modo habitual da família, causado de imediato um sentimento de rejeição e de resistência a mudanças. Com isso, é importante que o terapeuta haja de maneira amigável, obtendo contato direto com cada um e transmitindo compreensão, aceitação e generosidade para todos.

O segundo passo diz respeito, de acordo com Nichols e Schawartz (1998), à dinâmica do sistema familiar que provém de uma interação dialógica entre os membros, sendo que, a estrutura familiar é manifestada conforme acontece esse processo de troca de conversas. Ao decorrer da sessão o terapeuta utiliza-se de técnicas para direcionar o que o cliente está falando, em relação ao outro, para o próprio sujeito que está sendo destacado na fala.

O terceiro passo, denominado Diagnosticando, refere-se à criação de um planejamento para definir as estratégias de mudanças, esse diagnóstico vai desde os problemas que englobam os membros dessa família, até os sistemas que compõe essa família. O mesmo tem como objetivo primordial, gerar uma transformação na estrutura familiar, que gere benefícios a todos os integrantes da família. Deste modo, na família King seria preciso criar uma mudança quanto aos modos de relacionamentos entre o Matt, e as filhas, e para isso seria preciso formular e definir estratégias que efetivassem a mudança, para que posteriormente com a mudança efetiva, a família convivesse em harmonia.   

No quarto passo, destacando e modificando, chama-se a atenção para as interações e modificando-as, o terapeuta ao perceber o padrão de interação, de desrespeito e desobediência das filhas King quanto à autoridade do pai, precisa alertá-los sobre esse tal padrão de interação e, além disso, modificá-lo. Uma das formas de modificar tais padrões é através do uso da intensidade, onde: 

Os terapeutas estruturais conseguem intensidade através da regulação seletiva de afeto, repetição e duração. O tom, o volume, o ritmo e a escolha das palavras podem ser usados para aumentar a intensidade afetiva das declarações. […]. A intensidade afetiva não é simplesmente uma questão de expressão clara. Temos de saber como e quando ser provocativos. (NICHOLS E SCHWARTZ, 1998, p. 205). 

O quinto passo, Determinando os limites, tem como objetivo realinhar as fronteiras, no caso da família King, ajudá-la a aumentar ainda mais a proximidade entre eles, pois já conseguiram um pouco sozinhos. Como Elizabeth faleceu, seria mais fortalecedor para esta família que Alexandra voltasse a morar com o pai e a irmã, estabelecendo, durante as etapas da terapia, uma fronteira nítida entre o subsistema parental, o subsistema fraterno e subsistema “amoroso”, dela com o Sid. 

O sexto passo, Desequilibrando, incide no desequilíbrio. Nichols e Schwartz (1998, p. 208) afirmam que o terapeuta tem como objetivo uma mudança no relacionamento dos membros alocados num subsistema. Desse modo, o terapeuta deveria unir-se a um indivíduo, no caso seria o Matt, apoiando-o até o momento que conseguem realinhar o sistema familiar (que ele não tem autoridade) e, alcançando o equilíbrio, o terapeuta faz uma alternância apoiando cada membro da família. 

No último passo, Desafiando as suposições da família, segundo Nichols e Schwartz (1998, p. 209) “às vezes, o terapeuta estrutural de família atua como um professor, oferecendo informações e conselhos baseados no treinamento e na experiência”. Assim, o terapeuta deverá estimular novos padrões transgeracionais na família King, desafiando as suposições desta. Podemos inferir que há o comportamento de não obediência ao pai, das filhas, sobre falar palavrões. Neste caso, o mais adequado seria o uso do paradoxo, com o objetivo de oferecer mais alternativas para a família através da frustração. Exemplo a ser aplicado nas filhas pelo terapeuta: “Quantos anos vocês têm?”. “Dezessete e dez!”. “Não acredito! Pensei que tivessem bem menos, pois se realmente têm essas idades já deveriam saber que xingar e se esquivar diante um problema não irá resolvê-lo”. 

Fonte: http://zip.net/bbtDMq
Fonte: http://zip.net/bbtDMq

Desta forma, as teorias Boweniana e Estrutural, podem ser utilizadas como plano de intervenção, para produzirem mudanças significativas no âmbito familiar, que vão desde a ressignificação dos papéis desempenhados pelos membros da família até as tomadas de consciência, acerca do estado emocional da família. A intervenção consiste em abordar os integrantes da família King por meio dos passos e técnicas das teorias Estrutural e Boweniana, respectivamente, produzindo assim um aporte em conjunto com terapeuta, que dê suporte e margem para as mudanças necessárias nesse contexto familiar.

REFERÊNCIAS:

LACERDA, Sônia C. M. Projeto Cine-debate.  Disponível em: <http://portalses.saude.sc.gov.br/index.php?option=com_docman&task=doc_download&gid=8590&Itemid=82>. Acesso em: 23 de novembro de 2016.

MARTINS, Elizabeth Medeiros de Almeida; RABINOVICH, Elaine Pedreira  and  SILVA, Célia Nunes. Família e o processo de diferenciação na perspectiva de Murray Bowen: um estudo de caso. Psicol. USP [online]. 2008, vol.19, n.2, pp.181-197.

NICHOLS, Michael P. SCHWARTZ, Richard C. Terapia Familiar Boweniana e Terapia Familiar Estrutural in Terapia Familiar – Conceitos e Métodos. Porto Alegre, RS: Artmed, 1998.

OLIVEIRA, M. de F. Entrevista Psicológica – O Caminho para aceder ao outro. Monografia (2005). Disponível em: www.psicologia.pt/artigos/textos/TL0031.PDF. Acesso em: 20 de novembro de 2016.

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FICHA TÉCNICA:

OS DESCENDENTES

Fonte: http://zip.net/bmtDMb
Fonte: http://zip.net/bmtDMb

Título original: The Descendants
Ano: 2012
Direção: Alexander Payne
Duração: 115 minutos
Gênero: Comédia/Drama
País: Estados Unidos da América