Um senhor estagiário e o sentido do trabalho contemporâneo

Algo que é observado em relação ao trabalho são as várias mudanças e o avanço das tecnologias, e o homem passa a ser transformado pelo processo desencadeado pelo trabalho, acarretando dificuldades em dar sentido a sua vida se não estiver em atividades laborais. Segundo Hannah Arendt (2004) “cada vez mais temos uma alma operária”.

Em uma sociedade capitalista que faz constante referência ao consumismo, o trabalho poderá tornar-se uma atividade com sentido. Pois a capitalização e a globalização da economia têm promovido enormes transformações no mundo do trabalho, surgindo novas formas de organização e fazendo com que o mesmo venha representar um valor importante para a sociedade contemporânea.

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O filme “Um senhor estagiário” relata a vida de uma jovem chamada Jules Ostin, criadora de um bem sucedido site de vendas de roupas, que em pouco tempo de funcionamento já estava com 200 colaboradores na equipe. Ela leva uma vida muito atarefada, pois além das exigências do cargo e sua sobrecarga, ela é esposa e mãe, tendo que se desdobrar para conseguir estar presente em casa.

Sua empresa inicia um projeto de contratar idosos, em uma tentativa de coloca-los de volta ao mercado de trabalho; aqui entra em cena o personagem Ben, viúvo aposentado, que aos 70 anos se viu em uma vida monótona e tentava preencher seu vazio em várias outras formas e atividades de lazer, mas nenhuma com êxito, foi então que decidiu buscar uma vaga de estagiário que estava sendo oferecida, vendo ali a oportunidade de se reinventar, de voltar ao mercado de trabalho. Apesar das dificuldades encontradas com o uso das tecnologias, Ben precisava gravar um vídeo, e o seu ajudante nessa tarefa foi seu neto de nove anos de idade. Passou por várias entrevistas, até ser contratado pela empresa de Jules.

Ben era um homem que já possuía uma bagagem de conhecimento, tanto na área organizacional, como pessoal, sempre observava as demandas que surgiam na empresa, e buscava promover um equilíbrio entre os setores, e na jornada individual de cada um. O interessante é a harmonia gerada entre o conflito de gerações, e a experiência e o bom senso de Ben, que acaba sendo o personagem principal nesse enredo, mostrando o valor da amizade e do comprometimento com o trabalho.

Este trabalho tem como objetivo discorrer sobre o filme citado a cima, correlacionando-o com o sentido do trabalho na contemporaneidade.

Fazendo uma relação sobre o sentido do trabalho para Ben, pode-se observar que era visto como uma extensão da sua identidade, pois tentou de várias formas preencher a si mesmo com outras modalidades de atividades, mas não conseguia alcançar êxito naquilo que fazia. Portanto, esse sentido faz parte do ritmo aprendido no decorrer da sua vida e sua carreira profissional.

Para manter-se ativo, Ben procura a vaga para estagiário, mesmo com dificuldades com o uso de equipamentos tecnológicos, consegue se superar. E é essa angústia que tira o homem do cotidiano, comodismo e o redireciona ao encontro de si. A partir do momento em que ele entra na empresa e é contratado, é como se estivesse retomando a sua identidade que ele havia perdido devido a sua aposentadoria, podendo ser identificado na cena do filme onde ele coloca vários relógios para despertar, e o prazer que sente ao arrumar sua roupa de trabalho.

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Por mais que ele enfrentasse o choque de gerações, ele acaba por conquistar os seus colegas de trabalho e se aproxima aos poucos de Jules, promovendo um equilíbrio na empresa. Mesmo enfrentando preconceito no início, não deixou de ser ele mesmo para se manter no local de trabalho.

Segundo Albornoz (2004) “o trabalho está na base de toda sociedade, estabelecendo as formas de relação entre indivíduos, entre as classes sociais, criando relações de poder e propriedade, determinando o ritmo cotidiano”. O trabalho é parte integrante do sujeito.

A palavra trabalho tem suas nuances em várias línguas e culturas, e também no cotidiano possui muito significado, como atividade em serviço, mas também podendo significar dificuldade e incômodo. Em nossa língua, a palavra trabalho vem do latim (tripalium) que era um instrumento feito de três paus aguçados, utilizados pelos agricultores no trato dos cereais. O que na maioria dos dicionários registra como instrumento de tortura.

Para Albornoz (2004) a forma de trabalho passa por três grandes estágios, o primeiro onde o homem complementa o trabalho da natureza, isto é, vive da colheita das frutas e da caça de animais e pesca. O segundo, o homem confirma ser sentido através do trabalho artesanal e agrícola, e por último a revolução industrial que surgiu com aplicação da ciência à produção através da expansão capitalista.

Hoje temos um modelo de trabalho completamente diversificado, no filme percebemos que é uma empresa totalmente do século XXI, que se utiliza da tecnologia a seu favor.

Podemos elencar alguns fatores apresentados no filme para o bem estar da empresa e dos colaboradores:

– A liderança de Jules que é a CEO (Chief Executive Officer), que em português significa Diretor Executivo da empresa, trata todos os colaboradores com respeito, os elogia, não tem medo de se redimir e buscar ser o exemplo para toda a equipe. Essa é a verdadeira comunicação interna, que retém e motiva funcionários;

– A comunicação da empresa de Jules é na horizontal, modelo mais aceito pelas equipes na atualidade, porém, são poucos gestores que conseguem lidar com esse modelo, aderindo a um modelo mais “tradicional” que a comunicação na vertical, que é aquela “eu mando e você obedece”. Maximiano (2000, p.284) nos traz que “muitas das vezes, a comunicação para baixo procura manter as pessoas informadas para que possam trabalhar direito” e tem a comunicação ascendente que é quando:

“Os subordinados dão informações sobre o andamento e problemas do trabalho aos superiores, de modo que estes possam decidir o que fazer. Mas a informação necessária é com frequência censurada ou não é transmitida, e às vezes com resultados desastrosos” (HAMPTON, 1992, p. 434).

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Porém corre o risco de haver uma filtragem providencial destas informações, com intuito de encobrir ou atenuar conflitos e problemas que precisam de resolução. Jules se utiliza da comunicação horizontal, pois a mesma está envolvida em todo o processo da empresa e dando voz a todos da organização. Pois todos trabalham no mesmo andar, ninguém tem seu próprio escritório, nem mesmo a CEO, e o mais importante e relevante para a empresa é o trabalho em equipe e a comunicação;

– Assertividade no processo organizacional é importante, pois ele visa muito a saúde da equipe sem trazer prejuízos para a empresa e Jules mostra que mesmo sendo a fundadora e CEO da empresa, ela participa ativa e efetivamente nos processos da organização, entendendo como tudo acontece na prática. E ela faz isso para vivenciar a experiência de aproximação real com o público, de falar pessoalmente com ele e ver os detalhes que podem ser trabalhados. Em um dos momentos do filme ela vai pessoalmente explicar como deve ser feita a embalagem adequada do produto. Ela organiza e fecha o pacote se preocupando com a experiência de compra do cliente. Outro ponto fundamental que é assertiva nos processos seletivos da empresa, sabendo identificar pessoas empáticas da equipe existente, para que a proatividade dos colaboradores não seja afetada;

– Proatividade, é o momento que Ben entra em cena e mesmo com suas dificuldades nos início não desiste e resolve dar uma viravolta quando ele fala “vamos fazer acontecer” e assim ele faz toda a diferença da empresa;

– Empatia, é diferente de ser simpático! É um sentimento além, é quando a pessoa se coloca no lugar do outro, ou seja, é uma compreensão, é saber respeitar e entender os sentimentos do próximo. O filme não trouxe jovens “bobos” que não sabem conversar pessoalmente. Trouxe uma nova geração da qual fazemos parte e temos orgulho de fazer parte dela. São pessoas antenadas, inteligentes e conectadas, que sabem colocar-se no lugar do outros e os ajudam em suas limitações. Vivem bem em meio a diversidade, respeitam os demais e são totalmente empáticos, por saberem se colocar no lugar do outro.

Conclui-se que o mercado de trabalho está cheio de desafios, a tecnologia tem proporcionado uma série de oportunidades de novos empreendimentos, porém é necessário vários fatores para que possa fazer a diferença entre os demais. E inovação, criatividade, comunicação, forma de liderança, proatividade, decisões assertivas, ambiente e condições de trabalho proporcionando qualidade de vida, enfim uma gama de critérios a serem realizados para obter um bom desenvolvimento quando o assunto é trabalho.

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É importante destacar que não tem como definir o trabalho mais importante, pois depende do sentido que o indivíduo atribui ao trabalho, podemos relacionar alguns fatores importantes para o indivíduo no que diz respeito ao sentido para ele. Deve haver algo que motiva o sujeito para realização de determinada atividade, como também a satisfação, o sujeito deve estar satisfeito com o que faz.

Para Ben, o sentido do trabalho estava em ser útil para as outras pessoas, ou seja, a aposentadoria, a morte da sua esposa, trouxe um vazio no qual ele estava incomodado, então quando surgiu a proposta de estagiário Señior, ele foi em busca de um sentido para vida. Cabe ainda destacar o quanto Bem se tornou mais alegre e motivado, atribui a isso o fato de está no mercado de trabalho desenvolvendo o que aprendeu ao longo da vida, assim trazendo um sentido para viver.

REFERÊNCIAS:

ARENDT, H. A condição Humana. 10. Ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.

HAMPTON, D. R. Administração contemporânea. 3. ed. São Paulo: Makron Books do Brasil, 1992. 590 p.

MAXIMIANO, Antonio Cesar Amaru. Teoria geral da administração: da escola científica à competitividade na economia globalizada. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2000.

VIEIRA, Diego Padoan. O que significa empatia e apatia. 2013. Disponível em: http://www.administradores.com.br/artigos/cotidiano/o-que-significa-empatia-e-apatia/73356/. Acessado em: 03/04/ 2017.

Carolina Cótica
Graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (2002), especialista em Gerontologia (2004) e mestre em Ciências da Saúde pela UNB. Atualmente, com atuação em Psicologia Clínica (infantil e adulto) e organizacional na cidade de Palmas e como docente do curso de Psicologia do CEULP ULBRA e também como supervisora de atendimentos clínicos no serviço de Psicologia Clínica da mesma universidade