Água na pedra: sonhos líquidos que inundam a sociedade construída de asfalto e calor

” Dentro de cada um de nós há um outro que não conhecemos.

Ele fala conosco através dos sonhos “
Carl Jung

Arte: Salvador Dali

Uma máxima que reverbera e transcende o tempo afirma que “Os sonhos impulsionam a vida”. Essa leitura suscita o pensamento que desencadeia o ato de escrever. Por isso, esclareço que o objetivo deste texto reside na reflexão. E, convenhamos que o ato de refletir se torna mais salutar quando embalado pela poesia de Mário Quintana que eternizou os sonhos ao divagar

“Sonhar é acordar-se para dentro”

Mas, em uma sociedade contemporaneamente tão consumista, competitiva e excludente, ainda há espaço para sonhos?

Alfred Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão, defendia que o sonho constituiria o elo da corrente que liga a consciência do estado sonambúlico à consciência do estado de vigília. Logo, sonhos são reflexos do nosso consciente.

Sigmund Freud (1858-1939) no seu Traumdeutung (Interpretação dos Sonhos), publicado em 1900, afirma que o conteúdo dos sonhos é a via real para o acesso ao inconsciente. Dessa forma, os sonhos seriam a tentativa de realização de um desejo reprimido inconscientemente.

Diante destas postulações, cumpre-nos entender que sonhar é inerente à essência humana. Constituindo-se, assim, uma inevitável, deliciosa e desafiadora ação da enigmática mente humana, segundo minha visão particular.

Contudo, comporto-me neste texto como o “sapo tanoeiro” de Manoel Bandeira ao insistir na pergunta “Ainda há espaço para nossos sonhos?”

Na tentativa de elucidar este questionamento, aproprio-me da experiência do engenheiro Francis Alÿs  (estudante das Artes) que percorreu as ruas de Copenhague empurrando uma pedra de gelo até que ela derretesse completamente. E para quem está se questionando qual o objetivo desta experiência, surpreendi-me com a resposta que consiste na constatação de que “há ações que não nos levam a lugar algum”.

Foto: Francis Alÿs, Paradox of Praxis I (Sometimes doing something leads to nothing), 1997. Cortesia do artista e David Zwirner Gallery, Nova Iorque. © 2011 Francis Alÿs.

Pautada na experiência e constatação de Alÿs, reflito que sonhos realmente alimentam a vida. Literariamente conceituando, Sonhar é colorir o sentido da existência. Mas, sonhar por sonhar significa querer colorir a vida sem pincéis e sem tinta. Por isso, para concretizá-los, exige-se ação, planejamento e iniciativa. Precisamos gerenciar nossos sonhos, por meio de estratégias e metas, para alcançarmos suas realizações.

Logo, sempre haverá espaço para os sonhos. Então, sugiro que sonhemos com mais intensidade, mas também com mais ação. Exemplifico com o relato de que sempre sonhei em caminhar sobre as nuvens. Por isso, passei anos da minha vida, construindo tijolos imaginários. Mas, lutei para transformar esse sonho em realidade.

Para que isso acontecesse, um dia, guardei todos os meus tijolos imaginários dentro de uma mala e fiz minha primeira viagem de avião. O sonho se tornava realidade, eu andava sobre as nuvens….

Perceberam a diferença? Se eu continuasse com meus tijolinhos imaginários que construiriam uma escada para caminhar sobre as nuvens, eu, talvez, jamais sentisse o céu. Eu continuaria empurrando minha pedra de gelo pelas ruas da minha vida. Estaria me esforçando, sim, para alcançar um sonho, contudo, seria um esforço inútil.

Ratifico que “Sonhos são reais necessidades”, como poetizou Fernando Pessoa

Dever de Sonhar

Eu tenho uma espécie de dever, dever de sonhar, de sonhar sempre,
pois sendo mais do que um espetáculo de mim mesmo,
eu tenho que ter o melhor espetáculo que posso.
E, assim, me construo a ouro e sedas, em salas
supostas, invento palco, cenário para viver o meu sonho
entre luzes brandas e músicas invisíveis.

Defendo que os sonhos transformam nossa existência. Acredito que funcionem como água vivificadora que umedece essa sociedade inospitamente em processo de petrificação. Assim, sonhar embebe as durezas e o calor da vida permitindo com que, em meio às pedras do cotidiano, nasçam as rosas, como a rosa no asfalto de Carlos Drummond de Andrade

A Flor e a Náusea

“…Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

Finalizo aludindo Fernando Pessoa que sentenciou “Navegar é preciso. Viver não é preciso”. Acrescento que “Sonhar é preciso e inevitável”.

Elienai Ferreira de Oliveira
Mestre em Letras, com ênfase em Linguística. Professora de Comunicação e Expressão do CEULP/ULBRA. Amante das Letras e da Literatura. Colaboradora do (En)Cena.