Dionísio – o deus do vinho, da loucura, do êxtase e da tragédia

Dioniso (Baco para os romanos) possui três outros epítetos: Iaco, Brômio e Zagreu.

Iaco é o deus que conduzia a procissão dos Iniciados nos Mistérios de Elêusis. Brômio é “o ruidoso, o fremente, o palpitante”, significação que se harmoniza perfeitamente com a agitação e o tremor, acompanhados de estertores e surdos rugidos, que assinalavam o estado de transe com a presença do deus que se apossou de seus adoradores.

Zagreu é um dos nomes pelos quais é chamado o deus do êxtase e do entusiasmo no mundo mediterrâneo e particularmente, ao que parece, na ilha de Creta, onde possivelmente Zagreu teve o seu berço (Brandão, 1987).

Era filho de Zeus, mas dentre os deuses olímpicos foi o único a ter mãe mortal, Semele.

O mito de seu nascimento conta que primeiramente da união entre Perséfone e Zeus (sob a forma de serpente) surgiu o deus Zagreu. Hera, ciumenta, persuadiu os Titãs a atacarem o deus enquanto ele se olhava em um espelho. Não só os Titãs o despedaçaram como também comeram os pedaços do seu corpo com exceção do coração que Atena resgatou.

Atena trouxe a Zeus o coração e este o usou para preparar uma poção com a qual engravidou Semele, que então gerou Dioniso.

Semele ficou grávida, o que provocou o ódio de Hera. Para se vingar disse a Semele eu pedisse ao amante para se mostrar em todo o seu esplendor, da mesma forma que aparecia a Hera. Não podendo negar seu pedido, Zeus aparece a ela em sua carruagem de raios e trovões, o que levou Semele a morte. Zeus pega então o menino prematuro e o costura em sua coxa. Ao nascer, Zeus enviou Dioniso a irmã de Semele, Ino e o cunhado Atamante e ordenou que fosse criado como menina.

Mesmo assim Hera descobriu e enlouqueceu o casal que tentaram matá-lo, mas Zeus novamente o salva e o leva as ninfas do monte Nisa.

Seu tutor Sileno lhe ensinou os segredos da natureza e da produção de vinho. Sileno era descrito como o mais velho, o mais sábio e o mais beberrão dos seguidores de Dioniso, e era descrito como tutor do jovem deus nos hinos órficos. Era representado como estando quase sempre bêbado e tendo de ser amparado por sátiros ou carregado por um burro.

Adulto, a raiva de Hera tornou Dioniso louco o fazendo cometer assassinatos. Assim ele passa a vagar por várias partes da Terra. Ao chegar em Frígia, a deusa Cíbele o curou e o instruiu em seus ritos de iniciação. Curado, ele atravessa a Ásia ensinando a cultura da uva. Ele foi o primeiro a plantar e cultivar as parreiras, dessa forma ele passa então a ser cultivado como deus do vinho.

As árvores a ele consagradas são: a videira, a figueira a hera e os pinheiros. Seus animais consagrados são: o touro, o bode, a pantera, a corça, o leão, o leopardo, o tigre, o asno, o golfinho e a serpente (Bolen, 1990).

Dioniso é um deus que está sempre rodeado de mulheres. Portanto o mundo feminino lhe é familiar. Ele é também um deus da vegetação e está intimamente ligado a Demeter.

Como arquétipo Dioniso está ligado a operação alquímica da solutio, uma vez que ele representa a intensidade emocional capaz de dissolver os limites do ego. Por isso ele é um mobilizador de fortes emoções, desde as mais elevadas até as mais vis.

Conforme Edinger (2006).

“Na sua forma extrema, é selvagem, irracional, louca, desestruturada e estática. É inimiga de todas as convenções, leis e regras estabelecidas. Está a serviço não da segurança, mas da vida e do rejuvenescimento. O fraco e o imaturo podem ser destruídos pela sua força; o forte, como a terra inundada pelo Nilo, será fertilizado e revitalizado. Muitas síndromes clínicas traduzem uma identificação concreta com o princípio de Dionísio. O alcoolismo e a adição à droga são exemplos óbvios. Também o donjuanismo pode ser considerado uma forma de identificação com Dionísio, na qual o indivíduo se rodeia de mulheres em vários estágios de amor (Mênades) que o ameaçam de desmembramento psicológico por conflitos, obrigações e ligações. Dionísio assume um caráter compulsivo quando acontece numa personalidade dissociada. Em outras palavras, Dionísio destrói o ego quando este, à maneira de Penteu, não está relacionado com o todo. Em circunstâncias favoráveis, promove a harmonia e dissolve as diferenças.”

O fato de não morrer, por ser imortal o aproxima do egípcio Osíris e também de Hades, o deus da morte, sendo que conforme Heráclito, Dioniso era um e o mesmo com Hades.

Nos mistérios Eleusis, Dioniso descia ao submundo e se unia a Perséfone, sua mãe, sendo uma representação do filho-amante da deusa.

Pelo fato de ser retratado por vezes como criança, Dioniso se aproxima da figura do eterno adolescente, o puer aeternus, que é caracterizado pela pessoa intensa e emotiva, que não consegue encontrar objetividade em meio as suas paixões e é devorado pelas emoções. Vive em busca do êxtase e frenesi. É viciado em fortes emoções, por essa razão vive em busca de sexo, ou drogas. A pessoa tomada por esse arquétipo se torna alguém muito temperamental, passando do frenesi ao desespero sem razão aparente.

A mãe biológica de Dioniso morreu, sendo então cercado por amas de leite e cuidadoras. A separação física entre mãe e filho aqui nos mostra que, acarreta uma idealização da figura materna e no caso dos homens, ocorrerá uma busca por mulheres que sejam mães e amantes ao mesmo tempo, sendo que essas nunca chegarão aos pés de sua mãe interna. Vide que Dioniso, desce ao submundo, ou seja, ao inconsciente para se relacionar com sua mãe divina, Perséfone.

Nesse caso, o mito nos mostra que Dioniso está ligado ao mundo materno e ao inconsciente. O eu é contraditório para um deus que é um dos filhos favoritos de seu pai Zeus.

Isso ocorre, pois Dioniso não teve uma relação direta com Zeus, assim como seus irmãos Apolo e Hermes. Ele não figurava entre os olímpicos e permanecia em meio à natureza. Mas apesar disso Zeus reconhecia sua importância, pois sendo um deus ligado ao poder e a consciência ele sabia que essa força precisava ser equilibrada pelo caos e pela simplicidade representados por Dioniso.

Ele é um deus feminino-masculino sendo um símbolo do mediador entre esses o mundo do inconsciente e da consciência. Ou seja, ele pode ser considerado o xamã, aquele que torna possível o contato com o mundo dos arquétipos por meio dos sonhos e das fantasias.

Não é a toa que tem uma ligação tão forte com as mulheres, pois essas têm muito mais facilidade em entrar em contato com o irracional. Entretanto, ele pode ser um grande aliado no desenvolvimento da psique masculina fazendo-o entrar em contato com seu lado obscuro e emocional.

Dioniso e Hera formam um par de opostos. Ela deusa do casamento, ele deus do desregramento. Isso mostra que as emoções suscitadas por Dioniso fazem o individuo esquecer seu papel habitual.

O êxtase e o arrebatamento do deus podem transformar o individuo de forma positiva e negativa, dependendo da força do Eu. Os felinos como a pantera e o lince, dedicados ao deus, mostram isso. Ambos são animais belíssimos e fascinantes, mas ao mesmo tempo sanguinários. Suas Mênades quando tomadas pelo deus se transformavam enfurecidas e assassinas.

Se o ego não tiver alguma força, existe o perigo de literalizar essas emoções. Muitos assassinos são movidos pelo aspecto místico de Dioniso. Mas se o ego estiver saudável existe a possibilidade de ampliação da personalidade e de vivenciar emoções antes desconhecidas.

O desmembramento representado por Dioniso é um tema conhecido nas mitologias. Osíris e Jesus Cristo (por meio da crucificação), também simbolizam a morte e a ressurreição do deus, que sofre e padece.

O desmembramento assim como a crucificação simboliza o estar repartido entre opostos. Quando se está dividido entre várias possibilidades e isso causa sofrimento, Dioniso está presente. E isso possibilita a tomada de consciência quando percebemos vários aspectos incongruentes em nós mesmos.

Mas para que esse desmembramento seja positivo ele deve ser intercalado com a consciência, assim como mostra o mito onde Apolo e Dioniso revezavam o oráculo de Delfos. Apolo, deus solar, patriarcal, representante da consciência cedia ao irmão o oráculo durante três meses do ano. Isso significa que, em uma sociedade como a nossa centrada no logos e na consciência, devemos ceder um espaço em nossa vida ao irracional, ao êxtase e ao contato com nosso inconsciente para que possamos nos refazer e renascer, assim como o deus, para uma nova forma mais completa e mais ampliada.

Hellen Reis Mourão
Psicanalista Clínica com pós-graduação em Psicologia Analítica pela FACIS-RIBEHE, São Paulo. Especialista em Mitologia e Contos de Fada. Colaboradora do (En)Cena.