Elysium: “autocentrismo” e novas formas de eugenia

Estreou recentemente nos Estados Unidos e no Brasil o filme Elysium1, do diretor Neill Blomkamp e estrelado por Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Carly Pope e os brasileiros Wagner Moura e Alice Braga.

A trama gira em torno de um mundo dividido entre dois grupos: “os muito ricos, que vivem numa estação espacial imaculada construída pelo homem, chamada Elysium, e os demais, que vivem na Terra arruinada e superpovoada. As pessoas na Terra estão desesperadas para escapar da criminalidade, das doenças e da pobreza do planeta, e precisam desesperadamente da assistência médica de ponta disponível em Elysium – mas alguns residentes de Elysium farão de tudo para impor o cumprimento das leis anti-imigração e preservar o estilo de vida luxuoso dos seus cidadãos”, como destaca a sinopse do filme.

A saga hollywoodiana, apesar de futurista, lembra tanto as assertivas feitas pelo filósofo renascentista Montaigne, 450 anos atrás, quanto os escritos do contemporâneo Peter Singer (Austrália – 1946). Pois bem, para que o leitor se situe nesta temática, é necessário conhecer um pouco mais os pontos de vista destes dois pensadores.

Separadas por quatro séculos, as ideias do francês Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592) e de Peter Singer guardam semelhanças que, num primeiro momento, podem parecer superficiais, mas analisadas com esmero e sob a ótica do filme Elysium demonstram toda uma preocupação que parece perpassar o imaginário filosófico desde os socráticos, passando pela patrística e sempre à tona na modernidade e, mais recentemente, objeto de estudo de Singer: afinal, cabe ao homem deter o conhecimento apriorístico, ou isso trás sérias implicações éticas para a espécie humana, como a exposta na trama americana? Quais os riscos de o homem, ao assumir esta função, poder trazer para si mesmo, como a seleção de seres mais “fortes”, em detrimento dos mais fracos? Não porque sejam necessariamente fracos, mas porque não tiveram as condições de igualdade para demonstrar seu valor? Estas e outras questões são apresentadas por Singer no artigo “Fazendo compras no supermercado genético” [que pode ser visto como um prelúdio ao que se descortina no futuro de Elysium] e cujas respostas encontram eco em Montaigne, e seu conhecido “desprezo” pela arrogância humana na “Apologia de Raymond Sebond”.

O “embate” explicita uma crescente pressão secular para tirar do debate as questões religiosas e, portanto, também éticas, no campo da bioética, especificamente dentro da possibilidade de os pais poderem escolher certas características para seus futuros filhos, ou mesmo isentar-se de tê-los [tais filhos] quando os mesmos não estiverem dentro de um escopo estético previamente aceito, numa espécie de concretização do “Admirável Mundo Novo”2 (e que também deve ir para as telonas em breve), do escritor inglês Aldous Huxley.

No artigo “Fazendo as compras no supermercado genético”, que provavelmente deve ter exercido influência sobre o diretor e roteirista Neill Blomkamp, o ponto de partida de Singer é alertar a sociedade para uma tentativa, com alto custo, de se “eliminar possíveis pessoas deficientes” (logo, “diferentes”). Ou seja, Singer denuncia que o objetivo primeiro da medicina (reconhecido como propósito histórico), que é a cura das patologias, está se transformando numa espécie de “blitz” onde se procura identificar previamente, e eliminar em seguida, formas “inadequadas” de nascimento, o que leva a fortalecer um modelo de sociedade “na qual a deficiência é cada vez mais estigmatizada”. Em Elysium, quem teve “o azar” de não nascer entre os “puros-sangues” sofre com o descaso e a limitação de recursos, inclusive e principalmente de ordem médica. Aos que ficaram na Terra, não lhes é dado o direito de usufruir das câmaras médicas que cura qualquer doença.

Singer diz que a busca patológica pelo conhecimento apriorístico – o que os teólogos dizem ser possível apenas a Deus – é renegar as imperfeições humanas, transformando a condição diferente “cada vez menos tolerada e suscetível de ser aceita como uma variação normal da humanidade”. Este aspecto é grave, para Singer, porque pode resultar em novas formas de eugenia, ainda que disfarçada de outros motivos. Em Elysium, a segregação ocorre pela lei anti-imigração. Quem não pertencer a uma “casta” está fadado apenas às migalhas e a própria morte.

O mais grave nesta perspectiva de “supermercado genético”, em Singer, é “a sua ameaça ao ideal de igualdade de oportunidades”. Ou seja, com o conhecimento apriorístico a favor dos estratos mais abastados, assim como ocorre em Elysium,

“A atual geração de pessoas ricas terá a oportunidade de embutir suas vantagens nos genes de sua descendência. Essa gozará, então, não apenas dos abundantes benefícios oferecidos pelos seus pais, mas também das vantagens adicionais ofertadas pelos últimos desenvolvimentos da genética”. (SINGER, Peter. Tradução do inglês para o português de AMÓS NASCIMENTO – AAI/UNIMEP – 2004)

Sendo assim, os “afortunados” continuariam mais afortunados, e aumentaria o fosso entre ricos e pobres, já que o “livre mercado para o melhoramento genético aprofundará o abismo entre os estratos superiores e inferiores de nossa sociedade, minará a crença na igualdade de oportunidades e fechará a válvula de segurança da mobilidade social ascendente”. Singer defende que o Estado deve interferir nesta lógica perversa, para evitar que o “supermercado genético” fique totalmente nas mãos (e à mercê) dos humores do mercado.

Já Michel de Montaigne, notadamente na “Apologia de Raymond Sebond”, parte da premissa de que o “mundo desmente a grandeza do Criador”. E é para esse mundo, e para quem o defende, que Montaigne aponta a sua crítica. Para o francês renascentista, tanto o raciocínio quanto o discurso [humano] só ganham sentido na fé e na graça divina, caso contrário “parecem possuir uma forma, mas na realidade não passam de massas confusas e condenadas à impotência”.

Em Montaigne, a fé e a graça exercem influência, sobretudo, na tentativa de ver as próprias assertivas como as únicas dignas de respeito. Esta tentativa de valorizar o que se acredita, a qualquer custo (inclusive no ato de deturpar a opinião do outro), “é mais perigosa porque mais maliciosa”. No cerne disso tudo, estariam o “orgulho e a arrogância do ser humano”. A personagem de Jodie Foster, uma ministra mão de ferro, ilustra bem esta posição. O antídoto para essa “deformação”, segundo Montaigne, é deitar sob a terra “nossa orgulhosa pretensão, ponto de partida da tirania que sobre nós exerce o diabo”, afinal “Deus enfrenta os soberbos e perdoa os humildes” [São Pedro].

Esta tentativa desenfreada de obter o conhecimento apriorístico, diz Montaigne, já foi alvo de estudo de Santo Agostinho, que teria demonstrando com esmero que a razão tem suas debilidades. “O fácil e o difícil são para ela [a pessoa que defende as ideias de autorreferência] uma só coisa. Tudo enfim o que ela pretende julgar e a natureza em geral se sonega à sua jurisdição e competência”. Neste aspecto, Montaigne aponta para o viés por demais relativista adotado por quem procura se manter apenas sob o prisma da razão e, por conseguinte, do autocentrismo. E provoca:

“Quem o autoriza a pensar que o movimento admirável da abóbada celeste, a luz eterna dessas tochas girando majestosamente sobre sua cabeça, as flutuações comoventes do mar de horizontes infinitos, foram criados e continuem a existir unicamente para sua comodidade e serviço? Será possível imaginar algo mais ridículo do que essa miserável criatura, que nem sequer é dona de si mesma, que está exposta a todos os desastres e se proclama senhora do universo? Se não lhe pode conhecer ao menos uma pequena parcela, como há de dirigir o todo?”

O homem, na visão de Montaigne, não admite sua condição de ser que vive na esfera do sublunar e, portanto, suscetível às demandas que são impostas a todos os seres [sencientes]. Sendo assim, esse homem passa a criar condições para sair deste “esterco do mundo, amarrado, pregado à pior parte do universo [… e] pela imaginação se alça acima da órbita da lua e supõe o céu a seus pés!”.

Mas nesta “corrida” pela perfeição, alguns parecem levar vantagens sobre outros, no entanto Montaigne diz que todos têm direito à vida, pois “a natureza cuida igualmente de todas as suas criaturas. Não há nenhuma que ela não tenha abundantemente provido de meios necessários à sua conservação”. Recriminar a expressão de uma vida apenas pela ótica do ser humano, por este aspecto, é ceder à arrogância e ao capricho do homem. “Mas as exigências desregradas dos nossos apetites crescem mais do que a nossa possibilidade de satisfazê-los”.

Tanto o filme quanto o ensaio de Montaigne e o artigo de Singer mostram o que parece ser uma “tendência” humana a não se conformar com o incognoscível. O longa também “materializa” o alerta feito por Singer de que a seleção genética pode, na verdade, representar uma nova forma de eugenia, onde o homem vira as costas para a  heterogeneidade e imprevisibilidade humanas.

Para a sociedade que mora em Elysium, a prerrogativa da vida cede lugar a uma espécie de “relativismo perverso”, em que o bom é escolhido pela ótica de um dado grupo de privilegiados, em detrimento de uma porção de humanos que sequer poderá lutar por seus princípios, pois nestas circunstâncias não lhes é oferecida igualdade de oportunidades.

Essa autorreferência exacerbada, denunciada tanto em Elysium, quanto em Montaigne e Singer também é, no fundo, um alerta para a atual epidemia de auto-objetivação. Se se trata do ser humano como um objeto, ele é alvo de descarte. Um descarte que pode ser feito já no aborto, ou que pode acontecer bem mais à frente, quando dada pessoa não mais for interessante para um sistema perverso e segregador.

Notas:

1Fonte: http://migre.me/gd4DO Acesso em 26/09/2013

2 Admirável Mundo Novo (Brave New World na versão original em língua inglesa) é um livro escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932 que narra um hipotético futuro onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas. A sociedade desse “futuro” criado por Huxley não possui a ética religiosa e valores morais que regem a sociedade atual. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo da droga sem efeitos colaterais aparentes chamada “soma”. As crianças têm educação sexual desde os mais tenros anos da vida. O conceito de família também não existe. Fonte: Wikipédiahttp://pt.wikipedia.org/wiki/Admir%C3%A1vel_Mundo_Novo Acesso em 20/09/2013

Fontes:

SINGER, Peter. Fazendo compras no supermercado genético. Disponível emhttp://moodle2.catolicavirtual.br/mod/url/view.php?id=553145 [com senha]. Acesso em 29/08/2013.

MONTAIGNE, Michel de. Ensaios – Livro II – Montaigne (Disponível em http://moodle2.catolicavirtual.br/mod/resource/view.php?id=554550 [com senha]. Acesso em 21/08/2013.

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. São Paulo: Editora Globo, 2001.

TROTSKY. Léon D. Anti-Nietzsche, Contra o voluntarismo positivista da filosofia do super-homem no estado, do direito e da moral. Concepção, organização, compilação e tradução de Emil Asturig von München. Disponível em www.scientific-socialism.de/PECAP7.htm . Acesso em 31/08/2013.

BURKE, Peter. Montaigne. São Paulo: Edições Loyola, 2006, trad. Jaimir Conte.

RIBEIRO, Assis. Uma análise sobre o livro Admirável Mundo Novo. Disponível emhttp://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/uma-analise-sobre-o-livro-admiravel-mundo-novo . Acesso em 29/08/2013.

Miss Representation. Documentário estadunidense sobre a “ditadura da beleza”, dirigido por Jennifer Siebel Newsom, disponível em DVD e Blue-ray – 2011.


FICHA TÉCNICA DO FILME

ELYSIUM

Gênero: Ficção Científica
Direção e Roteiro: Neill Blomkamp
Elenco: Adrian Holmes, Alejandro Peraza, Alejandro Rae, Alex Peraza, Alice Braga, BillyJames, Brandon Auret, Carly Pope, Catherine Lough Haggquist, Christopher Vivanco, Claude Duhamel, Derek Gilroy, Dominika Zybko, Emma Tremblay, Faran Tahir, Hugo Steele, Jared Keeso, Jodie Foster, Jorge Sulser, Lexie Huber, Matt Damon, Michael Mando, Michael Shanks, Ona Grauer, Pauline Egan, Sharlto Copley, Terry Chen, Wagner Moura, William Fichtner
País: EUA
Ano: 2013

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).
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