Moda e Psicologia: quais interfaces?

A Moda não pode ser vista de forma ingênua. Para além do consumo, da publicidade e da superficialidade, há um todo muito maior que deve ser considerado. Trata-se de um fenômeno social e histórico, que expressa a subjetividade das sociedades ocidentais pós-modernas (BARNARD, 2003; LIPOVETSKY, 2009). Devido a isso, deve ser estudado em toda a sua complexidade, e abordado por diferentes áreas do saber.

Enquanto fenômeno, a Moda pode ser compreendida pelo olhar da Psicologia Sócio-Histórica, que o conceitua como um processo em permanente movimento e transformação, que se encontra simultaneamente, dentro e fora dos indivíduos (BOCK et al., 2001). Isto leva a considerar a Moda como uma intrincada teia de múltiplas relações, onde cada homem tem sua parcela de contribuição num todo maior e, ao mesmo tempo, é influenciado por ele.

A partir desse movimento, se forma a subjetividade, que é ao mesmo tempo individual e coletiva, porque estas constituem momentos contraditórios que se integram na constituição da psique humana (GONZÁLEZ-REY, 2003). Não obstante, elas podem ser observadas em cada um destes momentos, porque a subjetividade individual está relacionada a história de vida, sentidos e significações de um indivíduo, ainda que esta seja permeada pelos valores sociais. Nas palavras de Bock et. al (2001, p.93) “a subjetividade individual representa a constituição da história de relações sociais do sujeito concreto dentro de um sistema individual”.

Na moda, esta subjetividade individual pode ser observada no estilo de vestimenta, na forma como o indivíduo se apropria das tendências, nas peças que escolhe e no modo como as coordena. Ainda que os meios de comunicação influenciem os indivíduos sobre o que vestir, cada um poderá seguir essa moda ou não, apropriar-se de seus elementos. Uma vez que o fizer, será de um modo particular, de modo que é impossível que duas pessoas tenham seu vestuário idêntico.

Ainda que cada indivíduo se comporte de modo singular, é impossível deixar de considerar a subjetividade social, se constitui num complexo “sistema de sentidos procedentes de diferentes zonas do social” (GONZÁLEZ-REY, 2003, p.216) que, ainda que sejam produzidos individualmente, ganham caráter coletivo na forma de um discurso socialmente produzido, orientando as ações da sociedade como um todo.

Esta subjetividade social aparece nas tendências de moda, que estão vinculadas a um desejo coletivo e aos valores que predominam em um determinado momento na sociedade. Em geral são captadas por pesquisas de mercado e pela observação de estilos individuais que vão se generalizando, ganhando amplitude social. E é importante salientar que, enquanto parte da subjetividade social, a moda não está desvinculada dos diferentes sentidos e dos demais aspectos da sociedade pós moderna, como o consumismo, a tendência ao individualismo, a massificação e a valorização do novo.

Ainda que a subjetividade não tenha uma forma física, ela é formada pela ação do homem sobre o ambiente externo, e do efeito que isto produz em sua psique. Pois a “a alteração provocada pelo homem sobre a natureza altera a própria natureza do homem” (VIGOTSKI, 2000, p.73). Assim, ao produzir roupas e ao consumi-las, o homem modifica o ambiente e a si próprio, numa contínua interação. Ao se vestir, ele leva em consideração os diferentes cenários sociais e as relações daí decorrentes. A roupa, então, permite a apresentação do corpo no mundo, permitindo ao ser humano expressar sua identidade, seus valores, suas preferências estéticas e até mesmo seu estigma.

Além dessas interfaces entre Moda e Psicologia, existem outras, que não foram citadas aqui, como a Psicologia do Consumidor, a Psicologia das Cores. E ainda muitas outras, que ainda não foram construídas, mas que devem ser escritas a partir das conexões que se estabelecem entre as diversas áreas do saber, porque o conhecimento extrapola as rígidas divisões do saber consolidado.

Referências

BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lurdes Trassi. Psicologias – uma introdução ao estudo de Psicologia. 13ªed. São Paulo: Saraiva, 2001.

BARNARD, Malcolm. Moda e Comunicação. Trad. Lúcia Olinto. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

GONZÁLEZ-REY, Fernando Luís. Sujeito e subjetividade: uma aproximação histórico-cultural. Trad. Raquel Souza Lobo Luzzo. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.

LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. 1ª reimpressão. Trad. Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

VIGOTSKI, Lev S. A formação social da mente – O Desenvolvimento dos Processos Psicológicos Superiores. Trad. José C. Neto, Luís S. M. Barreto e Solange C. Afeche. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Hareli Fernanda Garcia Cecchin
Graduação em Psicologia pelo Centro Universitário Luterano de Palmas (CEULP/Ulbra). Pós-graduanda em Gestão Pública e mestranda em Desenvolvimento Regional, ambos pela Universidade Federal do Tocantins (UFT). Atua como psicóloga na Universidade Federal do Tocantins (UFT). Membro suplente do Conselho Regional de Psicologia do Tocantins (CRP 23) e coordenadora da Comissão de Psicologia na Política de Assistência Social no referido conselho.
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