A temperança e a escravidão da vontade

Enquanto escrevia este texto (parte dele), assistia também à apresentação do novo videogame da Microsoft, o XBOX One. A indústria do entretenimento (e não apenas esta) aprendeu a utilizar estratégias de marketing que demonstram algo fundamental: você não compra um produto, mas a possibilidade da experiência. Isso não é feito simplesmente por acaso. É uma estratégia muito eficiente, pois além de despertar no possível comprador a vontade de ter o produto, desperta a vontade de ter a experiência. É psicologicamente mais interessante, também, porque ao produto é atribuído preço, enquanto à experiência é atribuído valor. E enquanto o que se é obtido por preço pode ser proibitivo, por exemplo, por questões financeiras, o que se é obtido por valor, para agregar valor, justifica a aquisição, para o benefício da satisfação da vontade.

Foto: Sebastião Salgado, do livro Gênesis

Para início de conversa, qual o problema em satisfazer a (ou uma) vontade? Antes de responder a pergunta, é interessante uma compreensão dos temas que ela aborda. Como este é o primeiro de uma série de textos sobre as virtudes, é interessante retomar a origem do pensamento de Prudêncio (384 a 410, AD), quando, no poema Psychomachia, estabeleceu virtudes, pecados e relações entre eles [1]:

Tabela 1: Relação de combate entre as sete virtudes e os sete pecados no poema Psicomaquia, de Prudêncio

De certo modo, enquanto se pode pensar que é preciso 100% de cada uma das virtudes, isso é uma falsa verdade. Cada virtude, isoladamente, em excesso, poderia também configurar uma “falta”, um “pecado”:

a) Fé em excesso pode gerar atitudes que consideram apenas o espiritual e desconsideram que o ser, quanto matéria, vive em um mundo que é matéria e, como tal, possui suas necessidades. É humano, como tal;

b) Castidade (ou pureza) em excesso pode gerar um abandono total de todo e qualquer tipo de relacionamento, resultando em solidão completa para evitar qualquer tipo de ação ou pensamento considerado impuro;

c) Paciência em excesso pode gerar uma pessoa praticamente inativa, pois “há tempo para tudo”;

d) Humildade e Esperança em excesso podem gerar desapego de tudo que é considerado material, inclusive do que é criado para melhoria da qualidade de vida e da saúde;

e) Razão e Caridade em excesso podem gerar um entendimento cético em relação a tudo que não pode ser cientificamente demonstrado ou comprovado;

f) Unidade em excesso pode gerar ações extremamente direcionadas a um único ponto, fechadas e sem abertura para tudo aquilo que não for parte do todo que se considera como único e suficiente.

Não vou falar dos excessos dos pecados porque eles já foram abordados nos textos anteriores e não é difícil que até mesmo o leitor que acompanha este como o primeiro texto da série de “pecados e virtudes”, imaginar ou ter uma opinião própria sobre o resultado dos excessos dos pecados.

“A temperança é um dos maiores prazeres”.
Goethe

E a temperança? Não teria ela também um excesso? Conceitualmente, seria incorreto afirmar um excesso de temperança porque sua definição é justamente a de moderação. Logo, a existência de uma temperança destemperada seria uma absurda contradição. A temperança é o fiel da balança, ou a balança, em si, que não deixa pender para qualquer um dos extremos nem mesmo as virtudes.

Arte: “Temperantia”, de Luca Giordano

O tema da temperança, como virtude, está presente em várias denominações religiosas. Na China, Confúcio encorajava a modéstia e o autocontrole, que também está presente no Budismo e no Hinduísmo. No Cristianismo, representa um dos “frutos do Espírito”, semelhante ao alto-controle (o “L” é proposital). Um pensamento rápido pode sugerir: é óbvia para a religião a necessidade da temperança, uma vez que o pregado “autocontrole” nada mais seria do que mais uma forma de controle, propriamente dito. Entretanto, qualquer entidade que faça uso da temperança dos seus membros como uma forma de controle para si estaria, efetivamente, indo contra o que ela mesma prega, anulando o próprio princípio desta virtude.

É inerentemente difícil falar do assunto “autocontrole” considerando o rumo que toma nossa sociedade diariamente. Não sei você, que aqui lê, mas sou da geração que cresceu [“aprendendo” com a mídia]: “tudo que eu quiser o cara lá de cima vai me dar”, “escute seu coração” e “você pode ter tudo o que quiser, basta acreditar”. Pensamentos como estes bem que poderiam estar em livros de histórias para crianças e contos-de-fadas, nos quais, se você estiver do lado do “bem”, tudo dará certo e, para bem dizer, a história terminará bem antes de qualquer sinal de realidade pensar em começar a aparecer – mas não é para isso mesmo que se chama “fantasia”? Isso é assunto para outro momento.

Assim, chamo a atenção do leitor: no geral, quais as ideias de educação aceitas e aplicadas atualmente? Não é um exercício muito difícil de se fazer. Pais deixam cada vez mais seus filhos sob a responsabilidade da TV ou da internet porque precisam se dedicar ao sucesso profissional.

“O lar é o primeiro e mais eficiente lugar para aprender as lições da vida: verdade, honra, virtude, autocontrole, o valor da educação, trabalho honesto, e o propósito e privilégio da vida. Nada pode tomar o lugar do lar na criação e educação das crianças, e nenhum outro sucesso pode compensar o fracasso no lar.”
David O. McKay

Se você for a um supermercado e observar pais e filhos, você verá a dificuldade que pais enfrentam em dizer para seus filhos: não. “Não vou comprar isso para você agora”. Alguns dos que se atrevem a dizer isso são rapidamente dominados pela [poderosa] pequena e frágil pessoa que age, com as armas que lhe foram ensinadas, e luta ferozmente contra seu oponente (pai, mãe ou o sofrido responsável do momento) para conseguir o que quer. Observando outro aspecto, letras de músicas atuais estão repletas de referências a maneiras pouco racionais de lidar com situações em que não se consegue o que se quer: basta tomar “uma” para todos os seus problemas se afogarem e, no dia seguinte, você acordar, no máximo, com uma dor de cabeça e, se der muita sorte, com um lapso de memória. Programas de TV, há muito, assumiram o papel de ferramenta prática de alienação (difícil assistir à TV na tarde de domingo). Até os jornais e veículos de notícia estão entrando na “onda” (ou seria mera teoria da conspiração sobre manipulação da informação?).

A geração que está inserida neste cenário é a mesma que está nas ruas pedindo mudanças. Não vou cometer a estupidez de generalizar ou de afirmar que as manifestações são ineficientes. Entretanto, se você acompanhou notícias e redes sociais (que recebeu o título de “nova forma de democracia”, ou quase isso) deve ter visto sobre os que se aproveitam do alvoroço para cometer crimes e pode até ter visto manifestantes fazendo pose para foto, seguindo a moda e postando na rede social com o mesmo propósito de publicidade de quando alguém tira uma foto no quarto ou na praia. O ponto aqui é apenas este: qual a motivação da vontade?

Foto: Nair Benedicto

Cartazes e palavras de ordem ecoam: queremos mudança! E então, por onde se começa a mudança?

O estudo da temperança (que não tem espaço aqui para se prolongar, e nem é o objetivo) envolve, então, o questionamento quase que constante da motivação da vontade. É possível que neste ponto você já tenha começado a se questionar se aquele aparelho ultra-tecnológico comprado no ano passado já não tenha perdido o seu valor (que você pensou que ele tivesse no momento da compra ou o mesmo valor que lhe foi vendido como experiência). Ou se você realmente precisa daquele perfume tão caro. Ou se aquela pessoa com quem você quer estar realmente merece que você dê a ela tudo de si. Então, você ainda se acha senhor da sua vontade?

“Como a cidade com seus muros derrubados, assim é quem não sabe dominar-se.”
 Provérbios 25:28

Eu disse “questionamento constante” e você sorriu dentro de si. Questionar os outros é até fácil. Acompanhar a massa, a moda, e ir às ruas, tem lá sua dificuldade, mas não é tão difícil quanto questionar a si mesmo. E o que dizer do entendimento de que nossa juventude [pensante], universitária, estaria perdendo justamente a característica que mais a define: pensamento crítico, busca da ciência para benefício do todo? Olhar para a temperança é, figurativamente, olhar para dentro de si e se questionar de onde surgiram tantas correntes que te amarram, prendem, e ainda por cima, insistem em dizer que você pode fazer o que quiser. Aliás, é, antes, enxergar as correntes. Essa “liberdade” é ilusão, bem como a ilusão da perfeição de se ter, por completo, todas as virtudes.

A temperança é, então, um desafio a uma busca constante de equilíbrio. Isso, sim, é um pensamento que bem poderia estar em um cartaz em protesto por aí, pois a temperança:

a) não suporta a idolatria, pois esperar e confiar plenamente em uma pessoa, algo material ou no dinheiro é tão eficiente quanto seguir os conselhos de um tolo;

b) não aceita a luxúria, pois é uma entrega total ao instinto e às paixões, que são temporais, se inflamam e consomem num dia, e, no outro, já não são;

c) não tolera a ira, pois o amor ao próximo é a balança da resolução de conflitos;

d) não consente com a vaidade, porque tudo nesta Terra é passageiro;

e) não aprova a libertinagem, porque, sendo seu “alter-ego”, não tolera a máscara que oculta a impunidade;

f) não admite a avareza, pois não há quem consiga ter tudo e viver disso só para si, sozinho (que o diga o Robinson);

g) abomina a heresia, pois é difícil haver coisa pior do que o falso ensino.

Bastaria aos nossos governantes a leitura diária da palavra “temperança” impressa em letras garrafais no teto dos seus quartos para odiar o simples pensamento de agir incoerentemente com o voto de fazer o melhor para o outro. Bastaria à juventude que está nas ruas em protesto, (re)clamando por um Brasil melhor que não seja a mesma que se contenta em ser escrava da leve lembrança de autocontrole que se vende por aí. Por fim, não fique apenas nesse pensamento revolucionário de aplicar a necessidade da temperança ao outro, pois ela é um exercício diário e individual. A temperança diz: nenhum problema em satisfazer sua vontade, mas o que você quer [ter, fazer] é realmente necessário?

 

Nota:

[1] PSICOMAQUIA. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2013. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Psicomaquia&oldid=34990542>. Acesso em: 23 maio 2013.

 

Graduação em Sistemas de Informação pelo CEULP/ULBRA e mestrado em Engenharia da Computação pela UFRN. Professor nos cursos Sistemas de Informação e Ciências da Computação do CEULP/ULBRA.
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