Castidade: a virtude da continuidade permanente

“E tem certeza disso: é casta apenas aquela que nunca foi pedida
por ninguém, ou que, se pediu, não foi ouvida.”

Giovanni Boccacio

“A castidade é a mais anormal das perversões sexuais.”
Aldous Huxley

“A castidade é a sombra do amor.”
Paolo Mantegazza

No rol das virtudes, a castidade tem lugar como capacidade moral de resistir as tentações e ao pecado da luxúria, brevemente explicada, a virtude em questão é denotada em pessoas que conseguem, fazendo valer sua fé e fibra moral, resistir ao impulso da sexualidade e não sucumbir ao ato carnal não consagrado – fora do casamento e dos preceitos da igreja e da lei de Deus.

Essa explicação inicial da castidade pode – e deve – ser desfeita para garantir que a discussão sobre castidade não se retenha apenas a uma amplitude cristã, quando mais ocidental, e transpassar o mero conceito religioso para transversalmente ser objeto de discussão em outros ambientes e relações. A discussão sobre castidade se transforma, quando isolada de seu contexto religioso, na discussão sobre controle e persistência. É o dilema humano: irracional versus racional. É eterno e instantâneo, é mortal e essencial.

Resistência

Enquanto virtude, a castidade denota modelos de comportamento ou ações que sobressaem o indivíduo como alguém digno de nota por sua diferença em relação aos demais, um virtuoso. Em uma divisão da castidade em outras qualidades menores – mas componentes – podemos reunir três partes do todo: resistência, abnegação e perseverança. A primeira dessas partes traz a tona o primeiro ponto de cisão que demonstra que a castidade é uma virtude do choque, do embate.

Resistir é se encontrar com aquilo que fere, que é nocivo, que destrói, mas ainda assim permanecer. Resistência não é então fugir do conflito, do embate. A qualidade da resistência encontra-se nas situações onde mesmo posta a prova, a vontade não é dobrada ou vencida. Dizemos ser a pessoa resistente, muitas vezes como algo desqualificante, aquela que permanece atada ao que acredita mesmo quando tudo tem para não acreditar. Esse é o primeiro pilar da castidade.

Abnegação

A negação de si, segunda necessidade da castidade como virtude, tem razões balizadoras. A resistência, sozinha e sem limites, transforma o virtuoso em arrogante. Abnegar é perceber que o dilema das vontades (muitas vezes tomadas por crenças e valores, em uma confusão tipicamente nossa, humana), tem de ser vencido com exercícios diários de renúncia à soberba e a certeza.

Ser casto, neste sentido, também é perceber que considerar a mim como centro de referência e unidade de medida, é sucumbir ao egocentrismo, a adoração do eu e, portanto, da valorização hedonista e animalesca. Uma virtude como a castidade, mesmo entendida como exercício utópico e distante, é qualidade essencial da pessoa que deseja viver bem em sociedade. Ser casto é também ver o ‘outro’ antes do ‘eu’.

Perseverança

Não menos importante para a castidade é a capacidade resiliente e constante, de seguidamente se por a prova e permanecer casto. De inúmeras vezes ter sido induzido, mas não se deixar ser conduzido. Perseverar é a condição final, ou seja, a continuidade das ações de castidade é o objetivo, manter-se em movimento para não cair.

Não deixaremos de apresentar comportamentos, ideias ou desejos que vão ao encontro de nossas posições castas. Se mantida a castidade apesar de todo esse diálogo interno e dispendioso, ela se reforça e as bases para as ações e posicionamentos também são fortalecidos.

Se Mahatma Gandhi, ao resistir e abnegar-se contra a dominação inglesa, tivesse não perseverado, ou seja, tivesse desistido de sua opção casta pela não violência ao fim do primeiro, segundo ou terceiro momento de agressão, não só estaria em risco sua causa, mas também o tempo que passou acreditando que essa mesma causa tinha valor. A castidade, como posição pessoal de alguém que resiste a algo, requer que se continue, conscientemente, criticamente, acreditando.

Mesmo exemplo deram tantos outros, castos em diferentes aspectos, que mostraram que superar as limitações humanas, e suas fraquezas, é possível se encararmos as virtudes como realizações do dia a dia.  Atravessar o mar da incompreensão, sem transformar luta em relutância é o desafio.  Seguir casto talvez seja, continuar e castidade certamente é permanecer.

27, Graduação em Letras pela UFT. Atualmente é acadêmico de Direito pela Universidade Católica do TO.
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