Humildade: autoconhecimento e confiança em si mesmo

“A humildade exprime uma das raras certezas de que estou certo,
a de que ninguém é superior a ninguém.”

Paulo Freire

A palavra Humildade vem do latim húmus que significa “filhos da terra”, ou de humilitas, de humilis= pequeno, modesto, nos trazendo a proximidade junto ao Criador, corroborando com a apropriação do livre arbítrio que intensifica as ações no ato das escolhas, não como atitudes externas a convivência e sim numa atitude do homem perante Deus. Todos somos filhos da terra, temos a mesma essência, e todos os corpos foram feitos da mesma massa. Os títulos e os nomes em nada a modificam; ficam no túmulo; não são eles que dão a felicidade prometida aos eleitos; a caridade e a humildade são os seus títulos de nobreza.

Os momentos que vivemos são de grandes transformações em todas as áreas e a humildade é confundida com a pobreza de espírito, ignorância, fraqueza e não como a “sujeição do homem a Deus” , como a adesão, o sim de assentimento a esta condição originária e essencial.  Quando Deus disse a Davi que Ele o tinha escolhido para ser rei, Davi prostrou-se diante de Deus e exclamou: “Nada fiz de merecedor, todas as minhas realizações foram inteiramente as Tuas ações”. Então o que dizer da humildade, senão o combate ao orgulho, o esquecimento de si mesmo para exaltar o Criador. Para os hebreus, a humildade é modéstia e reconhecimento, oriunda da palavra hebraica “hoda’a”, que significa dizer “muito obrigado” a Deus.

Mateus em seu Evangelho nos apresenta: “Bem-aventurados os pobres de espírito, pois que deles é o reino dos céus”… (Mateus, 5:3.) Pobres de espíritos são os humildes, referindo-se às “almas simples e singelas, despidas do “espírito de ambição e de egoísmo”, trás em si a caridade, o amor ao próximo, a tolerância, as virtudes que engrandecem o homem perante Deus, não está ligada a nenhuma condição social.

Não são os títulos, a riqueza, a pobreza que nos tornam humildes e sim, o conhecimento de si mesmo, que nos transporta a uma viagem real pelos erros e acertos vividos cotidianamente no enfrentamento das diversidades humanas. Então as mudanças acontecem do interior ao exterior, o que nos torna humildes não são as conquistas materiais, mas as conquistas do próprio eu, estabelecendo mudanças e a base da humildade é o autoconhecimento.

Sem a humildade não se tem caridade, não se tem piedade, nos adornamos de falsas virtudes, nos encontramos mergulhados na hipocrisia, sem conhecer a alegria de se despir do orgulho que acrisola o homem em si mesmo em um sofrimento constante de sempre querer ser mais, em atitudes enganosas e contrárias a excelência do Criador. De todas as virtudes a “humildade se ignora a si mesma: como traz os olhos baixos, e fitos no abismo do seu nada, não reflete sobre o seu conhecimento, porque o verdadeiro humilde não presume que o seja.” Ter humildade é ser corajoso, atuante, perseverante, reconhecer-se como parte do universo, colaborar para que seja instalada a boa convivência, fazer a diferença onde estiver, se sentir filho do Criador, melhorar-se a cada dia.

São Tomás de Aquino se reporta a humildade dos homens para com os homens da seguinte maneira: “Observa-se nos homens uma dupla realidade: aquilo que é de Deus, e aquilo que é do homem…”

A humildade, no entanto, no sentido mais próprio, é a reverência do homem submetido a Deus. É por isso que o homem, olhando para aquilo que lhe é próprio, tem que submeter-se ao seu próximo, olhando para aquilo que esse tem de Deus em si. Mas a humildade não exige que alguém submeta aquilo que nele há de Deus, àquilo que parece haver de Deus no próximo… Do mesmo modo, a humildade não exige que alguém submeta aquilo que tem em si de próprio, ao que nos outros é próprio dos homens” . (PIEPER, 1960)

O humilde não se submete ao que é contrário as leis de amor, de paz, não se torna melhor que o outro, pois somos iguais perante a divindade, enche-se de alegria ao dever cumprido, é um aprendiz da vida, trazendo para se o que existe de melhor em sua volta, estabelecendo a si mesmo uma conduta que o eleve moralmente respeitando as leis do universo, sendo igual na criação e extremamente diferente na elevação e no contributo a harmonização das energias que envolve a humanidade.

A humildade faz que tenhamos consciência clara de que os nossos talentos e virtudes, tanto naturais como na ordem da graça, pertencem a Deus, porque da sua plenitude, todos recebemos. Humildade é reconhecer que valemos pouco – nada -, e ao mesmo tempo sabermo-nos “portadores de essências divinas de um valor inestimável”. (MONS. JOSÉ, 2011)

Em nossa sociedade a pessoa humilde não é bem vista, dela diz-se que não tem ambição nem garra, é fraca de personalidade, que não sabe se impor, é tida como boba, idiota, que não sabe aproveitar as oportunidades e chances que a vida lhe dá e se deixa ultrapassar pelos outros. Não se apega às conquistas conseguidas, não se agarra ao prestígio e ao poder dela emanados, mas deles se afasta, deixando o caminho livre para os adversários e concorrentes. (BINGEMER, 2013).

Tomemos aqui Jesus e Buda, eles contemplaram o caminho da humildade, anunciando a necessidade de nos colocarmos no lugar do outro, de abandonar a ilusão de superioridade, sendo honestos, verdadeiros, conquistando uma conduta harmoniosa consigo mesmo, irrompendo as barreiras do egocentrismo, transmutando ações negativas, pessimistas numa autoconfiança pautada na humildade.

Nos esbarramos no orgulho, na vaidade, nas relações de poder sobre o outro, na soberania, na arrogância, resvalando no lodo das relações doentes, improfícuas, sem respeito a si e aos outros, incapazes de amar e serem amados. Fecham os olhos a simplicidade engrandecendo o ar de superioridade alimentado pela hipocrisia do dia a dia, considerando a humildade como fraqueza, desconsiderando a real característica do humilde que se relaciona ao respeito, gentileza, sensibilidade, graciosidade, simplicidade e autoconhecimento. Quem é humilde valoriza as pequenas e grandes conquistas, são dignos e tratam os outros com dignidade.

A humildade não é passiva, exige confiança em si mesmo. Para ser humilde você precisa saber quem é e escolher servir os outros. Não se trata da modéstia causada pela insegurança. Dar importância à outra pessoa sem nos considerarmos diminuídos é a verdadeira humildade. (BAKER, 2001) Nos perdemos quando nos entregamos aos desvarios insanos do egocentrismo, nos tornamos reféns de nós mesmos, um barco sem porto em busca do nada.

Referências:

ÁVILA, F. B. de S.J. Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo. Rio de Janeiro: M.E.C., 1967.

BAKER, Mark W. Jesus, O maior psicólogo que já existiu. 2001. Editora Sextante

BINGEMER, Maria Clara. Humildade: uma virtude com má reputação.http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=73369 . Acessado em 19/07/2013.

MONS. José Maria Pereira. A virtude da humildade.http://www.comshalom.org/formacao/exibir.php?form_id=5111#sthash.z12HM6pk.dpuf. Acessado dia 19/07/2013

Pieper, extraída de Virtudes Fundamentais, Lisboa Aster, 1960. Trad. de Narino e Silva & Beckert da Assumpção

XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. FEB.

Adriana de Oliveira Freitas
Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Federal de Goiás (1991) e Mestrado em Educação pela Universidade Federal de Goias. Atualmente é professora na Secretaria da Educação de Goiás.
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